Pequenos ossos encontrados na Alemanha derrubaram uma velha ideia sobre o que humanos comiam há 400 mil anos
Marcas em ossos encontrados na Alemanha indicam que hominídeos escolhiam castores jovens e tinham uma dieta mais diversa do que se imaginava.
Há cerca de 400 mil anos, muito antes do surgimento do Homo sapiens, grupos humanos que viviam no centro da atual Alemanha não dependiam apenas de enormes animais para sobreviver. Ossos encontrados em Bilzingsleben revelam uma estratégia inesperadamente cuidadosa: esses hominídeos caçavam castores jovens, aproveitavam sua carne e gordura e provavelmente retiravam também suas peles.

O que os arqueólogos encontraram em Bilzingsleben?
O sítio arqueológico de Bilzingsleben, na Turíngia, preservou uma grande coleção de restos animais do Pleistoceno Médio. Entre eles estavam ossos pertencentes a pelo menos 94 castores. Pesquisadores das universidades de Mainz e Leiden e do centro LEIZA voltaram a analisar esse material para descobrir como os animais haviam morrido e sido aproveitados.
Com lupas e microscópios digitais, a equipe identificou marcas produzidas por ferramentas de pedra em diferentes partes dos esqueletos. A localização desses cortes indicava que as carcaças não haviam sido apenas encontradas ocasionalmente: elas foram processadas de maneira sistemática, incluindo etapas de retirada da pele e separação das partes do corpo.

Por que os humanos escolhiam castores jovens?
Um detalhe tornou a descoberta ainda mais interessante. Grande parte dos animais era formada por adultos jovens, justamente indivíduos que já haviam atingido bom tamanho, mas provavelmente tinham menos experiência para escapar de predadores. Para os pesquisadores, essa concentração dificilmente seria resultado apenas do acaso.
- Os restos analisados pertenciam a pelo menos 94 castores encontrados no sítio alemão.
- Muitos dos animais eram adultos jovens, totalmente crescidos e relativamente ricos em gordura.
- Marcas de ferramentas indicam processamento de diferentes regiões das carcaças.
- A distribuição dos cortes também sugere que as peles dos castores poderiam ter sido aproveitadas.
A gordura pode ajudar a explicar essa escolha. Carne muito magra, sozinha, não fornece uma dieta equilibrada, e recursos energéticos ricos em gordura teriam grande valor para populações do Pleistoceno. Castores bem alimentados poderiam, portanto, representar uma fonte concentrada de energia além da carne obtida de grandes herbívoros.
Os castores também forneciam peles?
As marcas observadas nos ossos não aparecem apenas em áreas associadas à retirada de carne. Parte delas é compatível com movimentos realizados durante o esfolamento, o que levou os autores a considerar a possibilidade de que as peles também fossem valorizadas. A excelente preservação do material permitiu reconstruir essas etapas com um nível incomum de detalhe.
Os pesquisadores são mais cautelosos ao interpretar para que essas peles teriam sido utilizadas, já que materiais orgânicos raramente sobrevivem durante centenas de milhares de anos. Ainda assim, a possibilidade amplia nossa visão desses grupos humanos, mostrando que um animal relativamente pequeno poderia oferecer diferentes recursos em uma única caçada.

Por que imaginávamos que eles caçavam apenas animais grandes?
Durante muito tempo, o registro arqueológico pareceu mostrar uma forte preferência dos hominídeos antigos por grandes mamíferos. Existe, porém, um problema de preservação: ossos de animais grandes têm maior probabilidade de sobreviver e serem encontrados, enquanto restos de pequenos animais e principalmente alimentos vegetais desaparecem com muito mais facilidade.
Essa diferença pode ter distorcido nossa imagem da alimentação pré-histórica. A exploração repetida de castores em Bilzingsleben mostra que uma dieta mais diversificada já existia aproximadamente 400 mil anos atrás, muito antes do período em que estratégias alimentares amplas costumavam ser associadas com maior frequência às populações humanas posteriores.
O que os castores mudam na história humana?
A descoberta ajuda a desmontar a imagem de ancestrais que simplesmente perseguiam os maiores animais disponíveis. Escolher castores adultos jovens, processar suas carcaças e retornar repetidamente a esse recurso sugere seleção cuidadosa das presas e conhecimento das oportunidades oferecidas pelo ambiente.
Um conjunto de pequenos ossos conseguiu, assim, alterar uma história construída durante décadas. Sempre que imaginarmos a alimentação humana de 400 mil anos atrás apenas como uma sucessão de caçadas a grandes mamíferos, vale lembrar dos castores de Bilzingsleben. Eles mostram que observar as evidências menores pode revelar comportamentos muito mais sofisticados do que esperávamos.