Pesquisadores estão transformando materiais encontrados em desertos em blocos de construção para reduzir o uso de cimento convencional

Pesquisadores transformaram areia do deserto em blocos sem cimento usando pó de madeira, calor e pressão. Veja como funciona a tecnologia e seus limites

Pesquisadores ligados à Universidade de Tóquio desenvolveram um material experimental que combina areia fina do deserto e madeira para produzir blocos sem cimento. Chamado de Botanical SandCrete, o material usa prensagem a quente para fazer com que componentes da madeira atuem na ligação dos grãos, criando uma alternativa que apresentou resultados promissores para blocos de pavimentação, mas que ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento.

Pesquisadores da NTNU e da Universidade de Tóquio criaram blocos com areia do deserto e pó de madeira. Entenda como o material ganha resistência.
Pesquisadores da NTNU e da Universidade de Tóquio criaram blocos com areia do deserto e pó de madeira. Entenda como o material ganha resistência.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a areia do deserto pode virar um bloco de construção?

A tecnologia mistura areia fina do deserto com pó de madeira e aplica calor e pressão para formar o bloco. O processo não depende da reação de hidratação do cimento: componentes lignocelulósicos presentes na madeira atuam como ligantes, ajudando a unir as partículas minerais. A pesquisa avaliou diferentes temperaturas, proporções da mistura, pressões e tempos de prensagem para encontrar condições capazes de produzir um material coeso.

A escolha da areia também é importante porque a areia desértica costuma ter grãos muito finos e arredondados, características que dificultam seu uso em concretos convencionais. No Botanical SandCrete, porém, os pesquisadores observaram que a finura e a alcalinidade da areia desértica favorecem a ligação entre os componentes. A proposta é justamente aproveitar uma matéria-prima abundante que normalmente apresenta limitações para aplicações tradicionais na construção. Esse contexto também ajuda a entender por que países desérticos ainda precisam importar areia adequada para determinadas obras, como explica esta análise sobre a dificuldade de usar areia do deserto na construção convencional.

Quem desenvolveu a tecnologia e quais testes já foram feitos?

O estudo do Botanical SandCrete foi desenvolvido por pesquisadores ligados à Universidade de Tóquio e à Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. Os testes compararam diferentes tipos de areia e condições de fabricação, além de analisar propriedades como densidade e resistência à flexão. A equipe também utilizou microscopia eletrônica de varredura para observar a formação da estrutura do material em escala microscópica.

Os protótipos apresentaram desempenho suficiente para atender, sob determinadas condições, aos requisitos japoneses aplicáveis a blocos de pavimentação. Isso é diferente de demonstrar que o material pode substituir concreto estrutural ou ser utilizado indiscriminadamente em edifícios. A própria pesquisa de 2025 apresenta os resultados como uma base para futuras aplicações, enquanto a pesquisa publicada em 2026 avançou a formulação com ativação alcalina e alcançou resistência à flexão de até 12,8 MPa em uma composição otimizada. O trabalho mais recente ainda classifica o Botanical SandCrete como uma plataforma em estágio inicial.

Areia desértica e pó de madeira podem formar blocos sem cimento. Entenda como calor e pressão ativam a lignina e quais testes já foram realizados.
Areia desértica e pó de madeira podem formar blocos sem cimento. Entenda como calor e pressão ativam a lignina e quais testes já foram realizados.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a madeira consegue dar coesão à areia?

A coesão vem principalmente dos componentes lignocelulósicos da madeira. Sob calor e pressão, esses materiais participam da formação de uma matriz que envolve e conecta as partículas de areia. A Universidade de Tóquio já havia estudado materiais em que a lignina presente na madeira funcionava como uma espécie de adesivo natural, formando compósitos por compactação a quente. A pesquisa específica com areia desértica levou esse princípio para uma mistura mineral diferente.

O trabalho mais recente aprofundou justamente esse mecanismo. Em 2026, os pesquisadores testaram diferentes soluções alcalinas e verificaram que a ativação por bases fortes pode aumentar a resistência e melhorar a estabilidade inicial em contato com água. A análise indica que a disponibilidade de íons hidroxila ajuda a ativar o ligante derivado da madeira e a densificar a interface entre madeira e areia. A descrição da própria Universidade de Tóquio sobre os materiais botânicos desenvolvidos pelo laboratório também explica o papel da madeira como elemento de ligação em pesquisas anteriores do grupo.

Quais são os limites dos blocos de areia do deserto?

O principal cuidado é não confundir um protótipo de laboratório com um substituto comercial universal do concreto. Os resultados publicados demonstram potencial para aplicações específicas, especialmente blocos de pavimentação, mas ainda existem questões relacionadas à durabilidade, resistência à água em diferentes condições, produção em escala, consumo de energia e desempenho a longo prazo. A própria fabricação depende de prensagem a quente, e a etapa de produção aparece entre os pontos que ainda precisam ser otimizados.

Por enquanto, portanto, a tecnologia deve ser vista como uma rota experimental para aproveitar areia fina do deserto e resíduos de madeira, e não como um material pronto para substituir o cimento em qualquer obra. O avanço mais importante está em mostrar que uma característica que dificulta o uso convencional da areia desértica pode ser aproveitada em outro processo de fabricação. Uma abordagem semelhante vem sendo explorada em outras pesquisas e reportagens sobre blocos produzidos com areia fina de desertos, mas a aplicação comercial em larga escala ainda depende de novos testes, padronização e estudos de viabilidade.