Por que alguns golfinhos carregam esponjas marinhas no focinho para procurar comida?

Golfinhos utilizam esponjas marinhas para proteger o focinho enquanto procuram alimento.

Na Baía dos Tubarões, na Austrália, alguns golfinhos descem ao fundo com uma esponja marinha encaixada no focinho. Não a carregam como adorno: a estrutura macia protege o rostro enquanto remexem o substrato em busca de peixes escondidos. O comportamento não aparece em todos os indivíduos nem em todos os grupos. É uma técnica local, aprendida principalmente na convivência com a mãe, que oferece uma janela rara para investigar como animais usam ferramentas e transmitem hábitos entre gerações.

Comportamento permite procurar peixes escondidos no fundo do mar.
Comportamento permite procurar peixes escondidos no fundo do mar.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a esponja ajuda na busca por comida?

O golfinho seleciona uma esponja adequada, encaixa-a na ponta do rostro e percorre áreas do fundo marinho. A esponja amortece o contato com areia, fragmentos e organismos que poderiam ferir uma região sensível. Ao perturbar o substrato, o animal pode fazer pequenos peixes saírem do esconderijo e capturá-los. A ferramenta altera, portanto, o modo de procurar alimento.

Pesquisas em Shark Bay indicam que algumas presas desse ambiente são difíceis de detectar apenas pela ecolocalização, sistema que usa sons e ecos. Peixes sem uma bexiga natatória evidente podem produzir sinais acústicos menos úteis. Remexer fisicamente o fundo cria outra oportunidade. Os estudos não afirmam que toda esponja sirva nem que cada mergulho termine em captura.

Técnica de caça pode ser transmitida entre gerações de golfinhos.
Técnica de caça pode ser transmitida entre gerações de golfinhos.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que apenas alguns golfinhos fazem isso?

A técnica exige acesso às esponjas certas, habitat adequado e tempo de aprendizagem. Pesquisadores observaram sua concentração em certas linhagens maternas, com transmissão social da mãe para filhotes. Isso não significa que o comportamento seja herdado como a cor dos olhos. A convivência oferece oportunidades para observar e repetir uma sequência de escolhas e movimentos.

O processo reúne condições que ajudam a explicar sua distribuição desigual:

  • É preciso encontrar uma esponja que caiba no rostro.
  • A busca ocorre em áreas do fundo com presas apropriadas.
  • Filhotes acompanham mães durante a alimentação.
  • A técnica demanda prática antes de se tornar eficiente.

O que as pesquisas dizem sobre aprendizagem?

Estudos de redes sociais, genética e acompanhamento individual convergem para forte transmissão cultural vertical, sobretudo entre mães e descendentes. Golfinhos usuários de esponjas mantinham associações sociais particulares, apesar de a coleta com a ferramenta ser uma atividade solitária. A proximidade entre indivíduos permite observar quem aprende com quem ao longo dos anos. Isso mostra que “cultura” aqui se refere a comportamento aprendido que persiste num grupo, não a uma comparação simples com costumes humanos.

O vídeo brasileiro a seguir apresenta a técnica de caça em imagens curtas. Ele ajuda a visualizar a esponja no focinho; os detalhes sobre transmissão social e ecologia vêm das pesquisas de campo, que acompanham indivíduos por períodos muito mais longos.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube biobaoba, que apresenta golfinhos usando esponjas como proteção ao procurar presas no fundo do mar:

Isso acontece com todos os golfinhos?

Não. A observação clássica vem de determinadas populações de golfinhos-nariz-de-garrafa do Indo-Pacífico em Shark Bay. Outras populações usam estratégias de caça diferentes, e muitas não foram vistas com esponjas. Mesmo dentro da baía, apenas uma parte dos animais adota a técnica. A distribuição limitada é uma das razões pelas quais o comportamento interessa aos cientistas.

É importante não misturar esse uso com outros relatos de golfinhos carregando objetos em contextos distintos. Função e espécie precisam ser identificadas pela observação. As esponjas usadas durante o forrageio pertencem à cena específica que está em discussão; a prática não deve ser generalizada a todos os cetáceos.

O que essa ferramenta revela?

Revela uma solução local para explorar alimento onde a busca apenas por ecos pode ser menos eficaz. A esponja protege o focinho, mas seu valor depende do ambiente e da aprendizagem. O fato de mães transmitirem a técnica a filhotes conecta ecologia e vida social: um recurso do fundo do mar influencia o comportamento de gerações de uma mesma população.

O interesse científico não está em chamar o golfinho de “humano do oceano”. Está em observar com precisão como um objeto modifica a caça e como uma prática se mantém sem ser universal. Os pesquisadores também distinguem aprendizado observado de uma capacidade que todos os golfinhos teriam por natureza. A esponja no rostro parece um detalhe curioso. Para o animal que a domina, pode abrir acesso a presas que outros procuram de outra maneira no mesmo ambiente.