Tamanco de banho romano: Os chinelos de banho mais antigos do mundo foram encontrados em um forte ao longo da Muralha de Adriano

Dois mil anos antes dos chinelos de vestiário modernos, os romanos já usavam plataformas de madeira para evitar queimaduras

Dois mil anos antes dos chinelos de vestiário modernos, os romanos já usavam plataformas de madeira para evitar queimaduras e quedas nos banhos públicos. Um exemplar encontrado no forte de Vindolanda, junto à Muralha de Adriano, pode estar entre os calçados de banho mais antigos do mundo.

O artefato, produzido entre 140 e 180 d.C., possui uma plataforma de madeira e uma tira superior de couro.
O artefato, produzido entre 140 e 180 d.C., possui uma plataforma de madeira e uma tira superior de couro. - Imagem gerada por IA

Como era o tamanco de banho romano?

O artefato, produzido entre 140 e 180 d.C., possui uma plataforma de madeira e uma tira superior de couro. O modelo pertence ao tipo de calçado chamado pelos romanos de sculponeae, criado para manter os pés afastados de pisos aquecidos e facilitar a circulação em ambientes úmidos e escorregadios.

A maioria dos exemplares de Vindolanda apresenta solas com aproximadamente 2,5 a 5 centímetros de altura. Segundo Elizabeth Greene, arqueóloga da Universidade de Western Ontario, alguns modelos eram simples, enquanto outros exibiam padrões geométricos ou representações de dedos esculpidas diretamente na superfície.

Plataformas de madeira e couro protegiam os pés em termas.
Plataformas de madeira e couro protegiam os pés em termas. - Imagem gerada por IA.

Por que os romanos usavam tamancos nas termas?

Os banhos romanos funcionavam como importantes espaços de convivência. De acordo com a English Heritage, os visitantes passavam por salas frias, mornas e quentes antes de retornar para um mergulho em água fria. Esse percurso exigia proteção adequada contra mudanças de temperatura e superfícies molhadas.

O calor vinha do sistema de hipocausto, que mantinha uma fornalha acesa sob pisos elevados. A técnica aquecia salas e piscinas, mas também tornava o chão extremamente quente. Os tamancos protegiam a pele do contato direto e ofereciam maior estabilidade durante o deslocamento entre os ambientes.

Por que tantos calçados sobreviveram em Vindolanda?

Vindolanda foi uma fortaleza romana localizada em Northumberland, no Reino Unido. As camadas de lama com pouco oxigênio presentes no sítio impediram a decomposição de muitos materiais orgânicos. Essa condição rara permitiu a preservação de milhares de objetos que normalmente desapareceriam com o passar dos séculos.

As escavações arqueológicas revelaram uma coleção excepcional de calçados:

  • Mais de 5.000 sapatos romanos foram recuperados no local;
  • Cerca de 50 exemplares foram classificados como possíveis tamancos de banho;
  • Madeira e couro permaneceram conservados pela ausência de oxigênio;
  • Modelos decorados apresentam desenhos geométricos e marcas de dedos;
  • Diferentes tamanhos ajudam a compreender a população que vivia no forte.

Como madeira e couro são materiais perecíveis, poucos exemplares semelhantes chegaram aos dias atuais. Por isso, a coleção de Vindolanda oferece aos pesquisadores uma oportunidade incomum de estudar o cotidiano, os hábitos de higiene e as soluções práticas adotadas por soldados e moradores da fronteira romana.

Lama sem oxigênio preservou milhares de sapatos de madeira intactos.
Lama sem oxigênio preservou milhares de sapatos de madeira intactos. - The Vindolanda Trust

Este é realmente o chinelo de banho mais antigo?

A classificação ainda é debatida. Existem sandálias muito anteriores, incluindo exemplares egípcios associados ao período de Tutancâmon e modelos etruscos com armações metálicas do século VI a.C. Elizabeth Semmelhack, do Museu do Calçado Bata, ressalta, porém, que esses objetos não foram desenvolvidos para banhos públicos.

Em 2025, arqueólogos encontraram dois calçados infantis com sola de madeira em Isarnodurum, sítio romano na França, possivelmente anteriores ao exemplar britânico. Caso as pesquisas confirmem que eles também eram usados em termas, Vindolanda poderá perder o título de origem dos tamancos de banho mais antigos conhecidos.

O tamanco pode revelar novas funções do calçado romano

Elizabeth Greene investiga a possibilidade de que esses objetos não fossem usados apenas nas termas. Modelos semelhantes apareceram na Europa medieval como sobrebotas destinadas a proteger os pés contra lama, neve e água. Alguns tamancos romanos podem ter exercido essa função ou combinado diferentes utilidades no cotidiano.

O exemplar permanecerá exposto até setembro de 2027 no Museu do Calçado Bata, em Toronto, na mostra Desenterrando Vindolanda. Observar esse objeto é perceber que uma solução aparentemente moderna já protegia vidas há quase dois milênios, lembrando que estudar o passado também transforma nossa visão sobre o presente.