Três crianças sacrificadas em um vulcão coberto de neve há mais de cinco séculos podem ter sido vítimas das estratégias políticas de um imperador inca
Restos de milho, mandioca e coca encontrados a mais de 6 mil metros de altitude podem ter esclarecido um mistério preservado por cinco séculos.
Restos de milho, mandioca e coca encontrados a mais de 6 mil metros de altitude podem ter esclarecido um mistério preservado por cinco séculos. Uma nova análise indica que três crianças incas sepultadas no vulcão Llullaillaco foram sacrificadas por volta de 1499, possivelmente como parte de uma estratégia política do imperador Huayna Capac.

O que aconteceu com as Crianças de Llullaillaco?
As três múmias foram descobertas em 1999, logo abaixo do cume gelado do vulcão Llullaillaco, na Argentina, próximo à fronteira com o Chile. O grupo era formado por uma adolescente conhecida como Donzela de Llullaillaco e duas crianças de aproximadamente 7 anos, um menino e uma menina.
Estudos realizados nas últimas décadas indicaram que elas receberam alimentos valorizados, bebidas alcoólicas e folhas de coca antes de serem levadas ao santuário. O ritual fazia parte da capacocha, cerimônia promovida pelo Estado inca em ocasiões consideradas importantes para a religião, a política e a estabilidade do império.

Como os pesquisadores chegaram a uma data mais precisa?
Uma análise de radiocarbono feita em 2007 com amostras de cabelo apontava que as mortes ocorreram entre 1430 e 1520. A margem ampla dificultava a ligação do sacrifício com um governante ou acontecimento específico. Para reduzir essa incerteza, cientistas examinaram restos botânicos depositados junto às crianças.
O novo estudo, publicado na revista Archaeometry, analisou sementes e vestígios de milho, mandioca e coca encontrados entre as oferendas funerárias. Os resultados restringiram o evento ao período de 1462 a 1507, com maior probabilidade em torno de 1499, durante o reinado de Huayna Capac.
Quais evidências apontam para motivações políticas?
Huayna Capac governou em uma fase de grande expansão territorial, quando o Império Inca alcançou áreas dos atuais Equador, Colômbia, Peru, Bolívia, Chile e Argentina. Por volta de 1499, a região de Llullaillaco havia sido incorporada recentemente ao domínio de Cuzco, o que reforça a possível função política da cerimônia.
Segundo a arqueóloga Dominika Sieczkowska-Jacyna, da Universidade de Tecnologia da Silésia, a nova cronologia permite compreender melhor as estratégias imperiais. Entre as principais interpretações apresentadas pelos pesquisadores estão:
- Reafirmação da autoridade inca em um território recentemente conquistado.
- Criação de alianças com comunidades e lideranças das regiões do sul.
- Comemoração de eventos políticos ligados à expansão ou à presença imperial.
- Busca por equilíbrio cósmico em um período percebido como instável.

Oferendas rituais reforçavam a autoridade imperial sobre regiões recém-conquistadas pelo império. - Imagem gerada por IA.
Qual era o papel da Donzela de Llullaillaco?
A adolescente recebeu numerosas oferendas funerárias, incluindo alimentos e folhas de coca, o que levou os arqueólogos a considerá-la a figura central do ritual. As duas crianças mais novas podem ter participado como acompanhantes cerimoniais, embora os pesquisadores ainda investiguem como cada uma foi selecionada e qual função ocupava.
Crônicas produzidas durante o período colonial relatam que Huayna Capac viajou pelas regiões meridionais do império e ofereceu sacrifícios de crianças aos deuses. Os autores do estudo ressaltam, porém, que ainda não é possível atribuir o evento diretamente ao imperador com certeza absoluta, apesar da forte compatibilidade histórica.
A descoberta muda a compreensão sobre o poder inca
O estudo mostra que a capacocha não deve ser entendida apenas como uma prática religiosa isolada. Em um território vasto e culturalmente diverso, cerimônias organizadas pelo Estado podiam fortalecer a presença de Cuzco, estabelecer vínculos com grupos locais e transmitir uma poderosa mensagem de autoridade política e espiritual.
Os pesquisadores defendem que análises semelhantes sejam realizadas em outros sepultamentos infantis incas. Comparar datas, plantas, oferendas e contextos regionais pode revelar padrões ainda desconhecidos. Investigar esses vestígios agora é essencial para compreender como religião, expansão e poder moldaram um dos maiores impérios das Américas.