Um orangotango ferido mastigou uma planta medicinal, passou o líquido exatamente na ferida e depois cobriu o corte com as folhas
Orangotango foi observado aplicando uma planta medicinal sobre uma ferida no rosto e cobrindo a lesão com folhas mastigadas.
Rakus estava com uma ferida aberta no rosto quando fez algo que chamou a atenção dos pesquisadores: mastigou folhas, aplicou o líquido diretamente na lesão e depois a cobriu com a massa vegetal. O orangotango de Sumatra foi observado em 2022 usando uma planta conhecida na medicina tradicional, num caso descrito cientificamente em 2024.

O que os pesquisadores viram na floresta?
A equipe acompanhava orangotangos em Suaq Balimbing, na Indonésia, quando notou a ferida em 22 de junho de 2022. Três dias depois, Rakus começou a se alimentar de Fibraurea tinctoria, uma trepadeira da região. Em seguida, passou a mastigar folhas sem engolir imediatamente o material.
Com os dedos, levou o líquido da boca até a área machucada. A aplicação foi repetida por cerca de sete minutos e se concentrou na lesão. Depois, o animal cobriu o tecido exposto com a polpa mastigada, formando uma camada de material vegetal sobre o ferimento.

Por que a escolha dessa planta chamou a atenção?
Fibraurea tinctoria é utilizada na medicina tradicional e contém substâncias estudadas por atividades como ação anti-inflamatória e analgésica. Isso torna sua escolha relevante para a hipótese de automedicação. Não era apenas qualquer folha encostando casualmente no rosto durante uma refeição.
A espécie também fazia parte da alimentação dos orangotangos estudados, embora aparecesse com pouca frequência nos registros. Portanto, Rakus não precisava descobrir uma planta completamente desconhecida. A novidade estava na sequência de uso sobre a ferida, com aplicação localizada e cobertura da região.
O que aconteceu com o machucado depois?
Os pesquisadores não observaram sinais de infecção nos dias seguintes. Em 30 de junho, cinco dias depois da aplicação, a ferida estava fechada. O estudo, publicado na Scientific Reports por Isabelle Laumer e colegas, reuniu observações e imagens para documentar a evolução do ferimento.
Há um detalhe importante sobre os registros: o momento da aplicação não foi fotografado nem filmado. A equipe o descreveu em anotações de campo. Imagens posteriores mostram Rakus, a planta e a recuperação, mas não devem ser apresentadas como uma filmagem do tratamento enquanto ele acontecia.
A recuperação de Rakus e a planta escolhida ajudam a acompanhar a descoberta. Veja a apresentação do caso no vídeo do canal do YouTube Dr. Isabelle Laumer; a aplicação na ferida foi registrada em anotações, não filmada:
Isso prova que a planta curou o orangotango?
A sequência é compatível com a hipótese de um cuidado ativo, e a planta possui compostos biologicamente relevantes. Ainda assim, observar um indivíduo não permite separar todos os fatores envolvidos na cicatrização. A recuperação natural e o maior tempo de descanso também precisam ser considerados.
A atenção ao contexto aparece igualmente em outros comportamentos surpreendentes de primatas: uma cena pode revelar algo novo sem responder a todas as perguntas. Neste caso, a equipe destacou uma combinação incomum de ações:
- Mastigar a planta e produzir líquido com o material vegetal.
- Aplicar o líquido repetidamente apenas sobre a lesão.
- Cobrir o ferimento com a massa de folhas mastigadas.
De onde Rakus aprendeu esse comportamento?
A origem permanece desconhecida. Ele pode ter desenvolvido a ação individualmente ou aprendido algo em outro contexto, mas o estudo não demonstrou como isso aconteceu. Também não autoriza afirmar que todos os orangotangos de Sumatra fazem o mesmo ou que possuam uma medicina equivalente à humana.
A pesquisa apresentou o caso como a primeira documentação desse tipo de tratamento ativo de ferida com uma planta de atividade biológica conhecida num animal selvagem. A cautela não diminui a descoberta: um único orangotango mostrou uma sequência de cuidado que ampliou as perguntas sobre a história da automedicação no mundo animal.