Uma baleia franca que vive hoje pode ter nascido antes da Guerra Civil Americana. Cientistas estimam que a espécie pode viver mais de 200 anos, enquanto fragmentos de arpões do século 19 encontrados embutidos em baleias capturadas fornecem evidências físicas extraordinárias de sua longevidade
Determinar a idade desses cetáceos é difícil porque eles não possuem algumas estruturas usadas para contar camadas anuais em outras espécies.
Uma baleia-da-Groenlândia que nada hoje pelo Ártico pode, em teoria, ter nascido antes do início da Guerra Civil Americana, em 1861. A espécie Balaena mysticetus possui uma longevidade extraordinária entre os mamíferos: análises químicas dos olhos apontam para indivíduos com mais de 200 anos, enquanto armas de caça do século 19 encontradas dentro de baleias fornecem uma evidência física impressionante dessa capacidade.

Como os cientistas descobriram que essas baleias passam dos 200 anos?
Determinar a idade desses cetáceos é difícil porque eles não possuem algumas estruturas usadas para contar camadas anuais em outras espécies. Em um estudo com lentes oculares, pesquisadores recorreram à racemização do ácido aspártico, processo químico que ocorre lentamente ao longo da vida. Entre os animais analisados, vários ultrapassaram um século e estimativas posteriores colocaram um dos machos perto dos 211 anos.
O que fragmentos de arpões do século 19 revelaram?
As provas mais curiosas não vieram apenas do laboratório. Caçadores encontraram dentro de exemplares capturados objetos que haviam permanecido no corpo por décadas. Entre os achados documentados estão diferentes artefatos associados à antiga caça no Ártico:
- pontas de pedra e marfim recuperadas em animais abatidos no Alasca;
- fragmentos metálicos de antigas armas baleeiras;
- uma lança explosiva encontrada em uma baleia capturada em 2007;
- outro fragmento semelhante recuperado de uma fêmea em 1980.
O achado de 2007 foi especialmente revelador. O objeto correspondia a um modelo patenteado por Ebenezer Pierce em 1879 e substituído por uma versão diferente em 1885. Os pesquisadores consideraram provável que a arma tivesse sido utilizada ainda no século 19, indicando que o animal sobreviveu ao ferimento por mais de um século antes de ser capturado.
Uma baleia atual poderia realmente ser anterior à Guerra Civil Americana?
Sim, biologicamente isso é possível, embora não signifique que exista hoje um indivíduo cuja idade tenha sido comprovada desde aquela época. A Guerra Civil Americana começou em 1861; uma baleia nascida antes desse ano teria atualmente mais de 165 anos, idade que se encontra dentro das estimativas já obtidas para a espécie. O que os dados sustentam é a possibilidade, não a identificação de um animal específico com essa história.

O que permite a um mamífero tão grande envelhecer por dois séculos?
A longevidade da espécie também virou objeto de pesquisas celulares. Um estudo publicado em 2025 encontrou nas células desses animais mecanismos particularmente eficientes de reparo de danos no DNA, algo importante para um organismo enorme que acumula divisões celulares durante dois séculos. Entre os resultados que chamaram atenção estão:
- maior capacidade de reparar quebras de dupla fita do DNA;
- menor frequência de determinadas mutações após o reparo;
- maior precisão em mecanismos responsáveis por religar regiões quebradas do genoma;
- alta expressão da proteína CIRBP, associada pelos pesquisadores à manutenção da estabilidade genética.
Esses mecanismos não provam sozinhos por que o animal vive tanto, mas ajudam a explicar como um mamífero que pode superar 80 toneladas mantém seus tecidos funcionando durante períodos tão longos. A combinação entre estudos de idade, genética e artefatos históricos transformou essa baleia em um modelo incomum para investigar envelhecimento e resistência a doenças relacionadas ao passar dos anos.
Os arpões antigos transformaram a longevidade em uma história visível
A força desses achados está no contraste temporal. Uma ponta metálica fabricada quando navios baleeiros ainda percorriam o Ártico permaneceu alojada no corpo de um animal que continuou crescendo e nadando por gerações humanas. O fragmento encontrado em 2007 pertencia a uma tecnologia patenteada em 1879 e já considerada ultrapassada poucos anos depois.
A baleia-da-Groenlândia reúne, assim, evidências químicas, biológicas e históricas de uma vida que pode atravessar mais de dois séculos. Alguns indivíduos podem ter compartilhado o oceano com embarcações do século 19, sobrevivido à antiga caça comercial e alcançado uma época de satélites, sequenciamento genético e monitoramento aéreo do Ártico — uma escala de tempo praticamente sem paralelo entre os mamíferos conhecidos.