“Uma história de mais de 100 milhões de anos”: o processo evolutivo que levou as cobras a abandonar suas patas

Perder as patas parece uma desvantagem, mas foi justamente essa transformação que ajudou as cobras a conquistar florestas

Perder as patas parece uma desvantagem, mas foi justamente essa transformação que ajudou as cobras a conquistar florestas, desertos, oceanos e ambientes subterrâneos. Novos fósseis, imagens em 3D e análises genéticas estão revelando como esses répteis remodelaram o corpo ao longo de mais de 100 milhões de anos.

Tiago Simões, biólogo evolucionista da Universidade de Princeton, explica que fósseis antigos aparecem em ambientes muito diferentes.
Tiago Simões, biólogo evolucionista da Universidade de Princeton, explica que fósseis antigos aparecem em ambientes muito diferentes. - Imagem gerada por IA

As primeiras cobras provavelmente evoluíram em terra firme

Os cientistas estimam que os ancestrais das serpentes surgiram há cerca de 160 milhões de anos, embora os fósseis mais antigos ainda deixem dúvidas sobre seu ambiente original. Durante décadas, pesquisadores discutiram se as primeiras cobras viviam no mar, no subsolo ou sobre a superfície.

Tiago Simões, biólogo evolucionista da Universidade de Princeton, explica que fósseis antigos aparecem em ambientes muito diferentes. Hoje, a hipótese mais aceita é que as serpentes tenham surgido em terra firme, talvez em regiões arenosas onde poderiam circular pela superfície e também se esconder ocasionalmente no solo.

Perda dos membros adaptou as cobras para diversos ambientes terrestres.
Perda dos membros adaptou as cobras para diversos ambientes terrestres. - Imagem gerada por IA.

A perda das patas tornou o corpo mais eficiente

Segundo Alex Pyron, biólogo evolucionista da Universidade George Washington, a redução dos membros ocorreu provavelmente entre 150 milhões e 125 milhões de anos atrás. Para animais que se deslocavam pela vegetação baixa ou por espaços estreitos, as patas poderiam dificultar a movimentação e prender o corpo em obstáculos.

Fósseis como Najash rionegrina, encontrado na Patagônia e datado de aproximadamente 95 milhões de anos, ainda preservavam membros posteriores. No entanto, o ancestral de quatro patas que ligaria definitivamente lagartos e serpentes modernas permanece desconhecido, mantendo uma importante lacuna na história evolutiva do grupo.

Quais mudanças transformaram as serpentes?

Um grande estudo publicado na revista Science em 2024 analisou crânios, dietas e milhares de genes de cobras e lagartos. Os resultados mostraram que, há aproximadamente 125 milhões de anos, as serpentes passaram por mudanças rápidas na coluna vertebral, na alimentação e na estrutura da cabeça.

  • Perda progressiva dos membros anteriores e posteriores
  • Alongamento do corpo com centenas de vértebras
  • Crânio dividido em partes altamente móveis
  • Mandíbulas capazes de ampliar a abertura da boca
  • Adaptação a dietas e ambientes muito diferentes

Essas modificações permitiram que as cobras se movessem com eficiência no chão, na água e nas árvores. Frank Burbrink, curador de herpetologia do Museu Americano de História Natural, afirma que essa flexibilidade corporal ajudou o grupo a se adaptar rapidamente sempre que novas oportunidades ambientais apareceram.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Zoomundo contando a história do surgimento e evolução das serpentes.

O crânio flexível ampliou as possibilidades de alimentação

Nas cobras, a caixa craniana forma uma estrutura óssea resistente ao redor do cérebro, enquanto os demais ossos permanecem móveis. Michael Caldwell, biólogo evolucionista da Universidade de Alberta, considera possível que essa transformação tenha começado antes mesmo do desaparecimento completo das patas.

Ligamentos elásticos permitem que partes das mandíbulas se afastem, enquanto os lados do palato se movimentam de forma independente para empurrar a presa até a garganta. Essa anatomia permite que serpentes consumam animais muito maiores que suas cabeças, além de lesmas, peixes, caracóis e até outras cobras.

Genética e fósseis ainda podem revelar novas respostas

A genética mostrou que a perda das pernas está relacionada à redução da função de uma sequência reguladora chamada ZRS, importante para o desenvolvimento dos membros. Pesquisas também indicam que serpentes perderam o gene ligado à produção de grelina, hormônio associado à fome, favorecendo longos períodos sem alimentação.

Burbrink, Pyron e Simões estão sequenciando genomas completos de mais de 100 espécies para reconstruir essa história com maior precisão. Ainda faltam fósseis decisivos, mas cada nova descoberta reforça uma certeza: proteger esses registros é urgente, pois toda cobra atual representa o resultado extraordinário de mais de 100 milhões de anos de evolução.