Uma ilha inteira foi colonizada por um pequeno grupo de cobras, e pesquisadores agora sabem como elas conseguiram
Uma análise genética encontrou milhares de variantes que podem explicar como poucos indivíduos deram origem a uma das invasões mais devastadoras do Pacífic
Uma invasão pode começar com poucos indivíduos e ainda assim transformar um ecossistema inteiro. Foi o que ocorreu em Guam com a cobra-arbórea-marrom (Boiga irregularis): mesmo partindo de uma população fundadora reduzida e altamente endogâmica, o réptil se espalhou pela ilha. Agora, um estudo genômico revela que uma diversidade escondida no DNA pode ajudar a explicar esse paradoxo.

Como poucas cobras conseguiram dominar Guam?
Nativa de regiões como Papua-Nova Guiné, Indonésia, Ilhas Salomão e Austrália, a espécie provavelmente chegou acidentalmente a Guam pouco depois da Segunda Guerra Mundial. O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, aponta as Ilhas do Almirantado como provável origem da introdução, associada ao transporte de cargas para a ilha.
O ambiente ofereceu uma combinação favorável: alimento abundante e ausência de controles naturais capazes de conter rapidamente a população. Predadora generalista e de hábitos noturnos, a cobra consome lagartos, aves, pequenos mamíferos e ovos. Em algumas décadas, sua presença passou de uma introdução acidental para um dos casos mais conhecidos de invasão biológica do Pacífico.

O que os cientistas encontraram escondido no DNA?
Um estudo publicado em 2026 na revista Science Advances investigou justamente uma contradição intrigante: como uma população originada por poucos animais conseguiu prosperar apesar de um gargalo genético extremo? Os pesquisadores utilizaram técnicas modernas capazes de identificar alterações grandes no genoma que análises tradicionais poderiam deixar passar.
A análise encontrou cerca de 19 mil variantes estruturais, alterações nas quais segmentos de DNA podem ser duplicados, eliminados ou reorganizados. O estudo indica ainda que aproximadamente metade do genoma analisado apresentava longas regiões de homozigose, sinal de forte endogamia, mas essa diversidade estrutural fornecia uma fonte genética que não aparecia claramente em análises convencionais.
- Quase 19 mil variantes estruturais foram identificadas no genoma das cobras estudadas.
- Essas alterações atingem uma parcela do genoma muito maior do que variações de uma única letra do DNA.
- Genes relacionados à imunidade e ao olfato aparecem entre as regiões enriquecidas por essas variações.
- Os resultados ajudam a explicar como uma população muito endogâmica ainda pode conservar recursos genéticos úteis para adaptação.
Por que olfato e imunidade podem ter feito diferença?
As variantes estruturais não estavam distribuídas aleatoriamente. Segundo o estudo da Science Advances, elas aparecem com frequência elevada em regiões relacionadas à imunidade e ao olfato. Isso pode ser importante porque enfrentar novos patógenos, reconhecer o ambiente e localizar alimento são desafios fundamentais quando uma espécie chega a um território desconhecido.
Os pesquisadores também discutem uma hipótese curiosa envolvendo o reconhecimento de outras cobras. Alterações ligadas à percepção química poderiam influenciar como indivíduos identificam parentes, presas ou outros animais. A possibilidade ainda precisa de investigação adicional, e os cientistas não afirmam que essas variantes, isoladamente, expliquem todo o sucesso da invasão.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube 1% AO DIA mostrando como as cobras-arbóreas-marrom conseguiram dominar uma ilha inteira.
O que aconteceu com os animais nativos de Guam?
O sucesso das cobras teve um preço enorme para a fauna local. O USGS afirma que a espécie foi uma das principais responsáveis pela perda de nove das 11 aves florestais nativas de Guam e também contribuiu para declínios de morcegos e lagartos. A retirada de aves do ecossistema produziu consequências que ultrapassam a simples redução no número de espécies.
O impacto chegou também às cidades. Como são excelentes escaladoras, essas cobras alcançam postes, linhas e subestações, onde podem provocar curtos-circuitos. Pesquisas e programas do USGS apontam milhões de dólares em danos à infraestrutura elétrica, além da necessidade permanente de impedir que animais escondidos em cargas sejam transportados para outras ilhas.
Por que essa descoberta muda a visão sobre populações pequenas?
Durante muito tempo, gargalos populacionais foram associados principalmente à perda de diversidade genética e à redução da capacidade de adaptação. O caso de Guam não derruba esse princípio, mas acrescenta uma peça importante: algumas populações podem conservar variações estruturais relevantes mesmo quando outros indicadores mostram níveis preocupantes de endogamia.
Agora, os pesquisadores querem descobrir se essas variantes já existiam antes da invasão ou se parte delas mudou depois da chegada a Guam. Comparar animais da ilha com populações da distribuição original poderá ajudar a responder essa pergunta. Entender esse mecanismo importa tanto para prever invasões quanto para estudar espécies ameaçadas. O DNA dessas cobras mostra por que uma população aparentemente frágil nunca deve ser subestimada.