Uma peça de jogo em forma de rei, criada há cerca de 1.000 anos e marcada por um penteado peculiar, pode ser o retrato mais próximo já encontrado de um verdadeiro viking
Uma pequena peça de marfim de morsa, esquecida por mais de dois séculos em um depósito, pode ser a representação mais próxima já encontrada
Uma pequena peça de marfim de morsa, esquecida por mais de dois séculos em um depósito, pode ser a representação mais próxima já encontrada do rosto de um viking. Com pouco mais de 3 centímetros, a estatueta criada há cerca de mil anos chama atenção pelo penteado elaborado, pela barba trançada e por uma expressão descrita como travessa.

Peça pode representar um rei viking do século X
Segundo Peter Pentz, arqueólogo do Museu Nacional da Dinamarca, a figura retrata um rei do fim do século X. Ela foi produzida durante o reinado de Harald Bluetooth, que governou aproximadamente entre 958 e 986, e encontrada em uma região que fazia parte de seus domínios.
Apesar da coincidência histórica e geográfica, Pentz evita identificar a figura como um retrato do próprio Harald. O especialista afirma apenas que a peça representa um governante da época, uma conclusão relevante porque são raríssimas as imagens humanas detalhadas preservadas da Era Viking.

O penteado revela detalhes da elite nórdica
Mesmo bastante danificada, a estatueta conserva características incomuns. O cabelo aparece repartido ao meio, com uma onda lateral que deixa as orelhas expostas e a parte traseira curta. O rosto apresenta olhos grandes, bigode volumoso, costeletas e um longo cavanhaque aparentemente trançado.
Pentz sugeriu, em comunicado do Museu Nacional da Dinamarca, que o penteado provavelmente era usado por integrantes da elite nórdica. Para o arqueólogo, a escultura é excepcional por oferecer uma imagem vívida de um homem daquele período, funcionando como um pequeno busto de aparência quase individualizada.
Quais detalhes tornam a estatueta tão rara?
A maior parte da arte produzida durante a Era Viking era formada por padrões ornamentais e animais fantásticos, como serpentes e dragões. Representações humanas expressivas eram menos comuns, o que aumenta a importância arqueológica da peça encontrada na Noruega. Entre seus principais diferenciais estão:
- Escultura detalhada em marfim de morsa
- Penteado elaborado com as orelhas visíveis
- Bigode, costeletas e cavanhaque trançado
- Expressão facial considerada travessa ou maliciosa
- Produção datada do final do século X
De acordo com Pentz, trata-se do mais próximo que os pesquisadores provavelmente chegarão de um retrato de um viking. A expressão, o estilo do cabelo e a barba oferecem pistas sobre a aparência e a moda da elite escandinava, indo além das imagens idealizadas criadas muitos séculos depois.

A peça fazia parte do chamado xadrez viking
A análise indica que a figura era a peça do rei em um jogo de Hnefatafl, frequentemente chamado de xadrez viking. Popular no norte da Europa antes da expansão do xadrez moderno, o jogo colocava um rei e seus defensores contra um grupo maior de adversários que tentava capturá-lo.
Outras peças menores, em formato de botão e produzidas em osso, foram encontradas na mesma escavação. Nenhum tabuleiro apareceu no local, mas exemplares de Hnefatafl podiam ser gravados em materiais perecíveis ou até esculpidos em pedra, o que ajuda a explicar sua ausência entre os achados.
Uma descoberta esquecida voltou a transformar a história
A estatueta foi descoberta na região de Viken, no sul da Noruega, a poucos quilômetros de Oslo, e catalogada pelo museu em 1798. Depois disso, permaneceu guardada até ser redescoberta por Pentz mais de 200 anos depois. O arqueólogo contou que ficou surpreso ao encontrar a figura olhando diretamente para ele.
O achado também lembra que nem todos os nórdicos eram vikings. Como explica o arqueólogo Neil Price no livro Children of Ash and Elm, muitos eram agricultores, comerciantes e artesãos. Preservar e reexaminar essas peças é urgente, pois um objeto esquecido pode mudar o que sabemos sobre rostos, costumes e vidas do passado.