Uma peça de jogo em forma de rei, criada há cerca de 1.000 anos e marcada por um penteado peculiar, pode ser o retrato mais próximo já encontrado de um verdadeiro viking

Uma pequena peça de marfim de morsa, esquecida por mais de dois séculos em um depósito, pode ser a representação mais próxima já encontrada

Uma pequena peça de marfim de morsa, esquecida por mais de dois séculos em um depósito, pode ser a representação mais próxima já encontrada do rosto de um viking. Com pouco mais de 3 centímetros, a estatueta criada há cerca de mil anos chama atenção pelo penteado elaborado, pela barba trançada e por uma expressão descrita como travessa.

Segundo Peter Pentz, arqueólogo do Museu Nacional da Dinamarca, a figura retrata um rei do fim do século X
Segundo Peter Pentz, arqueólogo do Museu Nacional da Dinamarca, a figura retrata um rei do fim do século X - Imagem gerada por IA

Peça pode representar um rei viking do século X

Segundo Peter Pentz, arqueólogo do Museu Nacional da Dinamarca, a figura retrata um rei do fim do século X. Ela foi produzida durante o reinado de Harald Bluetooth, que governou aproximadamente entre 958 e 986, e encontrada em uma região que fazia parte de seus domínios.

Apesar da coincidência histórica e geográfica, Pentz evita identificar a figura como um retrato do próprio Harald. O especialista afirma apenas que a peça representa um governante da época, uma conclusão relevante porque são raríssimas as imagens humanas detalhadas preservadas da Era Viking.

Representações humanas detalhadas eram extremamente raras na arte dos vikings
Representações humanas detalhadas eram extremamente raras na arte dos vikings - Roberto Fortuna, Museu Nacional da Dinamarca

O penteado revela detalhes da elite nórdica

Mesmo bastante danificada, a estatueta conserva características incomuns. O cabelo aparece repartido ao meio, com uma onda lateral que deixa as orelhas expostas e a parte traseira curta. O rosto apresenta olhos grandes, bigode volumoso, costeletas e um longo cavanhaque aparentemente trançado.

Pentz sugeriu, em comunicado do Museu Nacional da Dinamarca, que o penteado provavelmente era usado por integrantes da elite nórdica. Para o arqueólogo, a escultura é excepcional por oferecer uma imagem vívida de um homem daquele período, funcionando como um pequeno busto de aparência quase individualizada.

Quais detalhes tornam a estatueta tão rara?

A maior parte da arte produzida durante a Era Viking era formada por padrões ornamentais e animais fantásticos, como serpentes e dragões. Representações humanas expressivas eram menos comuns, o que aumenta a importância arqueológica da peça encontrada na Noruega. Entre seus principais diferenciais estão:

  • Escultura detalhada em marfim de morsa
  • Penteado elaborado com as orelhas visíveis
  • Bigode, costeletas e cavanhaque trançado
  • Expressão facial considerada travessa ou maliciosa
  • Produção datada do final do século X

De acordo com Pentz, trata-se do mais próximo que os pesquisadores provavelmente chegarão de um retrato de um viking. A expressão, o estilo do cabelo e a barba oferecem pistas sobre a aparência e a moda da elite escandinava, indo além das imagens idealizadas criadas muitos séculos depois.

Rara escultura viking em marfim revela detalhes da elite nórdica
Rara escultura viking em marfim revela detalhes da elite nórdica - Roberto Fortuna, Museu Nacional da Dinamarca

A peça fazia parte do chamado xadrez viking

A análise indica que a figura era a peça do rei em um jogo de Hnefatafl, frequentemente chamado de xadrez viking. Popular no norte da Europa antes da expansão do xadrez moderno, o jogo colocava um rei e seus defensores contra um grupo maior de adversários que tentava capturá-lo.

Outras peças menores, em formato de botão e produzidas em osso, foram encontradas na mesma escavação. Nenhum tabuleiro apareceu no local, mas exemplares de Hnefatafl podiam ser gravados em materiais perecíveis ou até esculpidos em pedra, o que ajuda a explicar sua ausência entre os achados.

Uma descoberta esquecida voltou a transformar a história

A estatueta foi descoberta na região de Viken, no sul da Noruega, a poucos quilômetros de Oslo, e catalogada pelo museu em 1798. Depois disso, permaneceu guardada até ser redescoberta por Pentz mais de 200 anos depois. O arqueólogo contou que ficou surpreso ao encontrar a figura olhando diretamente para ele.

O achado também lembra que nem todos os nórdicos eram vikings. Como explica o arqueólogo Neil Price no livro Children of Ash and Elm, muitos eram agricultores, comerciantes e artesãos. Preservar e reexaminar essas peças é urgente, pois um objeto esquecido pode mudar o que sabemos sobre rostos, costumes e vidas do passado.