Uma reforma revelou uma passagem escondida sob a igreja e levou arqueólogos a túmulos ainda mais antigos do que o prédio
Sob a Igreja de São Filiberto, pesquisadores encontraram uma cripta, sarcófagos e estruturas que revelam mais de mil anos de história religiosa.
Uma obra de restauração em uma igreja medieval de Dijon acabou abrindo uma passagem para séculos de história enterrada. Operários e arqueólogos encontraram uma escadaria esquecida sob a Igreja de São Filiberto e, ao segui-la, chegaram a uma cripta funerária lacrada havia cerca de 400 anos. O mais surpreendente veio depois: sob ela, surgiram túmulos e estruturas ainda mais antigos.

O que havia no fim da escadaria esquecida?
A descoberta aconteceu durante trabalhos para corrigir problemas estruturais provocados por uma laje de concreto aquecida instalada na década de 1970. Ao investigar o piso e as fundações da igreja românica do século XII, a equipe identificou uma passagem que levava a uma cripta funerária praticamente apagada da memória do edifício.
Segundo o Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva, o Inrap, a cripta pode ter sido usada entre os séculos XV e XVII. Crianças e adultos foram enterrados ali em caixões, e os ossos de sepultamentos anteriores chegaram a ser deslocados para abrir espaço para novos mortos.

Quem foi enterrado naquela cripta?
As arqueólogas Clarisse Couderc e Carole Fossurier encontraram sepultamentos relativamente simples, sem grandes monumentos ou rica decoração preservada. Isso sugere que o espaço não era necessariamente reservado a figuras poderosas e pode ter recebido diferentes integrantes da comunidade ligada à igreja.
O próprio Inrap informou que poucos objetos acompanharam os mortos. Entre os achados estavam moedas raras e dois rosários, peças pequenas que ajudam os pesquisadores a compreender práticas religiosas e funerárias de pessoas que viveram em Dijon séculos atrás.
- Uma escadaria esquecida conduzia a uma cripta funerária usada por várias gerações.
- Crianças e adultos foram encontrados em sepultamentos relativamente simples.
- Moedas e dois rosários estavam entre os poucos objetos preservados junto aos mortos.
- Escavações mais profundas revelaram enterros muito anteriores à construção da igreja atual.
Por que os sarcófagos surpreenderam os arqueólogos?
Quando a equipe avançou para camadas mais profundas, apareceram túmulos feitos com lajes dos séculos XI a XIII e seis sarcófagos ainda mais antigos. Alguns deles podem pertencer à Antiguidade Tardia e ao período merovíngio, o que colocaria certos sepultamentos vários séculos antes da igreja românica visível hoje.
Esse detalhe muda a dimensão da descoberta. Se a datação for confirmada, o local já possuía importância funerária e religiosa muito antes do edifício atual. Em outras palavras, o terreno pode ter sido considerado sagrado durante mais de mil anos, atravessando sucessivas fases da história de Dijon.

Existiam outras igrejas sob a igreja atual?
As escavações também revelaram paredes e fundações pertencentes a construções anteriores. Entre elas está uma alvenaria em padrão de espinha de peixe atribuída ao século X. Pesquisadores do Inrap acreditam que parte desses vestígios possa pertencer a uma igreja mais antiga identificada ainda em escavações realizadas em 1923.
As diferentes camadas mostram que o espaço foi reconstruído e transformado repetidamente. Uma igreja substituiu estruturas anteriores, novos pisos cobriram antigos sepultamentos e passagens deixaram de ser utilizadas. Com o tempo, até mesmo a entrada da cripta desapareceu da rotina do edifício.
O que essa descoberta revela sobre Dijon?
O achado mostra como edifícios históricos podem esconder uma cronologia muito mais longa do que sua aparência sugere. A Igreja de São Filiberto é medieval, mas o solo abaixo dela preserva indícios de cemitérios, construções religiosas e costumes funerários que atravessam vários períodos diferentes.
Tudo começou com um problema de restauração e terminou abrindo uma janela para mais de mil anos de ocupação religiosa. Uma escadaria esquecida foi suficiente para revelar que a história do local estava literalmente construída em camadas. Agora, cada tumba e cada parede podem ajudar os arqueólogos a reconstruir como aquele espaço mudou ao longo dos séculos.