Beatriz Ruiz, psicóloga: “É impossível ter uma conversa com uma pessoa sem inteligência emocional”

Saber quando o outro não está disposto a ouvir evita discussões que só aumentam a frustração

Para a psicóloga espanhola Beatriz Ruiz, é impossível ter uma conversa com uma pessoa sem inteligência emocional. A frase dá título a uma reportagem publicada em 3 de novembro pelo jornal El Confidencial e toca num ponto que muita gente conhece de perto: há diálogos que andam em círculo, por mais boa vontade que exista de um dos lados.

Ela fala das conversas pendentes, como a última depois de um término ou aquela com uma amiga ou um parente sobre algo que machucou. Segundo a psicóloga, “há conversas que não precisam de uma forma melhor de explicar as coisas”: você pode se expressar perfeitamente e, ainda assim, encontrar alguém mais preocupado em se defender do que em compreender. Perceber isso, diz ela, não significa desistir.

Propor uma pausa costuma funcionar melhor do que vencer a discussão – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Propor uma pausa costuma funcionar melhor do que vencer a discussão – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que a inteligência emocional muda numa conversa

Inteligência emocional é a capacidade de perceber, nomear e regular as próprias emoções, e de levar em conta as emoções de quem está do outro lado. Não tem relação com ser calmo o tempo todo. Tem a ver com conseguir sentir raiva, mágoa ou ansiedade sem deixar que isso comande cada frase.

São habilidades que se aprendem. O Centro de Inteligência Emocional da Universidade Yale, nos Estados Unidos, desenvolve programas para escolas que ensinam justamente essas competências, com estratégias práticas para lidar com as emoções em momentos de estresse e incerteza.

Sinais de que a conversa travou

Quando falta essa base, o diálogo costuma dar sinais parecidos, seja com o parceiro, com um parente ou com alguém do trabalho:

  • a pessoa interrompe o tempo todo e responde antes de você terminar;
  • qualquer comentário vira ataque pessoal, e a defesa vem com acusação;
  • o assunto muda para o que você fez de errado em outra ocasião;
  • o que você sente é tratado como exagero ou frescura;
  • admitir um erro, por menor que seja, parece impossível.

Por que insistir pode piorar?

Diante desses sinais, o impulso natural é explicar de novo, com mais detalhes e em tom mais alto. É aí que a frustração cresce, porque cada argumento novo é recebido como mais uma ameaça. A conversa deixa de ser sobre o problema e vira uma disputa sobre quem tem razão.

Esse padrão pesa também em quem assiste. A Catraca já mostrou como crianças que crescem entre discussões aprendem a ler o humor dos pais, e o jeito de brigar acaba virando modelo dentro de casa.

Como lidar sem entrar no mesmo tom

Falar em primeira pessoa ajuda: “eu fiquei chateado quando aconteceu tal coisa” abre mais espaço do que “você sempre faz isso”. Escolher um assunto por vez também evita que a conversa vire um acerto de contas. E silêncio não precisa ser fuga, já que muita gente baixa o olhar enquanto procura a resposta certa.

Se a temperatura subir, propor uma pausa costuma funcionar melhor do que vencer o argumento. Algo como “vamos voltar a isso amanhã, com mais calma” protege a relação e dá tempo para os dois lados organizarem o que sentem.

Quando a melhor saída é encerrar por agora

Reconhecer que o outro não está pronto para ouvir não é desistir dele. É poupar energia para quando houver espaço de verdade. Se esse tipo de conversa se repete e passa a pesar no dia a dia, um psicólogo pode ajudar, e no Brasil as clínicas-escola de psicologia das universidades costumam oferecer atendimento a preço acessível.

Na prática: perceba os sinais, fale do que você sente, trate um tema por vez, faça pausas e saiba encerrar quando o diálogo não está acontecendo.