Os psicólogos concordam: quem fica nostálgico nos dias frios pode não estar só com saudade, mas usando lembranças para o corpo se sentir mais aquecido
A ligação entre memória afetiva e temperatura intriga pesquisadores.
Quando o termômetro cai, muita gente se pega revendo fotos antigas, ouvindo músicas da adolescência ou lembrando o cheiro da cozinha da avó. A psicologia tem uma hipótese curiosa para esse hábito. A nostalgia pode funcionar como um recurso emocional que ajuda o corpo a lidar com o frio, trazendo uma sensação de conforto e aconchego.
Por que a saudade aparece mais quando a temperatura cai?
A nostalgia já foi tratada como doença. No século 17, o termo descrevia o sofrimento de soldados suíços que lutavam longe de casa. Hoje ela é vista como uma emoção agridoce e, na maioria das vezes, positiva, ligada ao humor, aos vínculos afetivos e à sensação de que a vida tem sentido.
O que pouca gente sabe é que essa emoção também conversa com o corpo. Pesquisadores observaram que as pessoas relatam mais lembranças afetivas em dias gelados. A hipótese é que a mente busca memórias acolhedoras para compensar o desconforto físico, de um jeito parecido com quem procura um cobertor.

Os cinco experimentos da Universidade de Southampton
A Universidade de Southampton, no Reino Unido, conduziu cinco estudos em parceria com a Universidade Sun Yat-Sen, na China, e a Universidade de Tilburg, na Holanda. Os resultados, liderados por Xinyue Zhou, foram publicados em 2012 na revista científica Emotion, no artigo Heartwarming Memories: Nostalgia Maintains Physiological Comfort. Cada etapa testou um aspecto diferente da relação entre memória e temperatura:
- Diário de 30 dias: os voluntários anotaram seus sentimentos nostálgicos e ficaram mais saudosos nos dias mais frios.
- Salas com temperaturas diferentes: quem ficou no ambiente a 20 °C sentiu mais nostalgia do que quem estava a 24 °C ou 28 °C.
- Música e sensação térmica: canções que despertavam lembranças fizeram os participantes se sentirem fisicamente mais aquecidos.
- Estimativa do ambiente: em uma sala fria, quem recordou um momento nostálgico avaliou o lugar como mais quente.
- Água gelada: após lembrar um episódio afetivo, os voluntários aguentaram manter a mão na água gelada por mais tempo.
O que Constantine Sedikides diz sobre a função da nostalgia?
Constantine Sedikides, professor de psicologia social na Universidade de Southampton, é um dos nomes mais citados nos estudos sobre saudade. Ele é coautor do trabalho, ao lado do pesquisador Tim Wildschut e de colegas chineses e holandeses. Há anos, o grupo defende que olhar para o passado não é fuga, e sim uma forma de regular emoções no presente.
Segundo os autores, a nostalgia cumpriria uma função homeostática, ou seja, ajudaria o organismo a manter o equilíbrio. Para a equipe, a emoção poderia sustentar tanto o conforto psicológico quanto o físico. Os autores ressaltam que ainda faltam pesquisas para saber se o efeito vale para outros incômodos, como dor ou fome.

Como usar lembranças afetivas a favor do bem-estar no inverno
Os experimentos não substituem um bom agasalho, mas sugerem que memórias felizes podem deixar os dias frios mais leves para a saúde emocional. Algumas práticas simples ajudam a acessar esse acervo de forma intencional:
- Montar uma playlist com músicas que marcaram fases importantes da sua vida.
- Rever álbuns de fotos de viagens, festas de família ou da infância.
- Preparar uma receita que lembre a casa dos pais ou dos avós.
- Ligar para um amigo antigo e relembrar histórias vividas juntos.
- Escrever em um caderno sobre um momento em que você se sentiu acolhido.
A psicologia por trás do calor que vem da memória
O estudo sugere que mente e corpo respondem juntos ao ambiente. Quando a psicologia observa alguém mais saudoso no inverno, ela não enxerga necessariamente tristeza. Pode ser um mecanismo de autorregulação, em que lembranças de afeto e pertencimento produzem uma sensação de aquecimento.
Vale prestar atenção ao tipo de lembrança que surge. A saudade que conforta costuma trazer gratidão e conexão com pessoas queridas. Já a ruminação, que prende a pessoa a perdas e arrependimentos, merece conversa com um profissional de saúde mental. Usar o passado como abrigo emocional nos dias gelados é uma estratégia que a ciência começa a investigar.