Psicóloga de Exeter ouviu 80 mulheres que pararam de pintar os cabelos brancos: o que pesa é a autenticidade

Estudo britânico mostra que assumir o grisalho tem ganho de identidade e também um custo social

Deixar de pintar os cabelos brancos nem sempre é sinal de cansaço ou de descuido. Uma pesquisa liderada pela psicóloga Vanessa Cecil, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, ouviu 80 mulheres que assumiram os fios grisalhos e encontrou um motivo que se repetia nos relatos: a vontade de se sentir autêntica. O preço, segundo as próprias participantes, é o risco de ser vista como menos competente.

O estudo voltou a circular nesta semana em uma reportagem do jornal argentino Clarín, que resumiu a ideia assim: quem não tinge os fios não está se rendendo, mas colocando a autenticidade acima da aprovação dos outros. A leitura dos próprios pesquisadores é um pouco mais cuidadosa, e é aí que o assunto fica interessante.

Autenticidade e competência no mesmo espelho

A pesquisa foi publicada no Journal of Women & Aging com o título “Gendered ageism and gray hair”, algo como “idadismo de gênero e cabelo grisalho”. As participantes faziam parte de dois grupos do Facebook dedicados à transição para o cabelo natural, a maioria de países de língua inglesa, segundo o comunicado da Universidade de Exeter.

Dois temas apareciam o tempo todo nos depoimentos. De um lado, a sensação de finalmente parecer com quem se é. Do outro, a consciência de que os fios brancos podem fazer colegas, chefes e até desconhecidos tratarem a pessoa como mais velha ou menos capaz.

Muitas relataram ter sido ignoradas ou tratadas como menos competentes depois da mudança. Mesmo assim, diziam se sentir mais felizes por exibir a cor natural.

Parar de pintar significa abandonar a vaidade?

Não, e esse é um dos achados mais curiosos do trabalho. Várias mulheres compensaram a mudança com outros cuidados: um corte novo, maquiagem diferente, roupas que combinassem com o tom prateado. Para Cecil, assumir o grisalho não é o mesmo que aceitar parecer velha.

Deixar de pintar não significa abandonar outros cuidados com a aparência – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Deixar de pintar não significa abandonar outros cuidados com a aparência – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O Clarín descreve a decisão como uma mudança na forma de entender o cuidado pessoal, e não como um abandono dele. Faz sentido: quem passa meses acompanhando a raiz crescer está prestando bastante atenção na própria aparência.

A reportagem argentina cita ainda um trabalho de 2026 feito com 25 mulheres de 63 a 73 anos em Milão e Turim, na Itália. A conclusão vai na mesma linha: as escolhas de aparência na maturidade misturam vontade própria e expectativas sociais sobre o envelhecimento.

O que a pesquisa não diz

Aqui cabe um freio. Nenhum dos dois estudos permite afirmar que todas as pessoas que deixam os cabelos brancos aparecerem fazem isso por autenticidade, nem que desprezam a opinião alheia. O próprio Clarín faz essa ressalva.

Os grupos ouvidos eram pequenos e formados por quem já tinha decidido parar de tingir. Há quem mantenha a tintura por gosto, por trabalho ou simplesmente porque se sente bem assim, e isso também é uma escolha legítima.

O que os dados mostram é mais simples: para uma parte das mulheres, o grisalho virou uma forma de se apresentar ao mundo com menos disfarce. A gente acha essa leitura bem mais justa do que a velha ideia de que quem para de pintar “se largou”.

Família e amigos fazem diferença na transição

Um ponto do estudo que costuma passar batido: as participantes que tinham apoio do parceiro, da família e dos amigos relataram uma transição mais fácil. Já as críticas vinham de dois lados opostos. Algumas ouviam que estavam “se largando”; outras tinham medo de parecer que se esforçavam demais para esconder a idade.

Cecil também observou que os fechamentos de salões durante a pandemia aceleraram uma mudança que já estava acontecendo, com mais mulheres desistindo da tintura. Muita gente descobriu, no susto, como ficava com a cor natural.

Como pensar a decisão sem pressa

Se você está em dúvida, a pesquisa sugere olhar menos para o espelho e mais para o motivo. Algumas perguntas ajudam:

  • Eu pinto porque gosto do resultado ou porque tenho medo do que vão dizer?
  • Como me sinto nos dias em que a raiz aparece?
  • Quem ao meu redor apoiaria a mudança?

Quem decidir assumir os fios pode conversar com um cabeleireiro sobre o caminho mais confortável. Aqui na Catraca, cabeleireiros já contaram qual erro costuma aparecer antes mesmo de parar de pintar, e reunimos penteados que valorizam o tom prateado para quem já fez a troca.

No fim, tingir ou não tingir diz respeito a quem carrega os fios. O estudo de Exeter só lembra que, para muitas mulheres, deixar o branco aparecer é um gesto de identidade, não de desistência.