Psicóloga: “Quando tentamos livrar a infância de todas as frustrações, só adiamos o momento em que a vida vai dizer não aos nossos filhos”

Pais cansados ou culpados cedem para evitar o choro, mas o limite dado com afeto ensina a criança a esperar

Muitos pais de hoje têm dificuldade de dizer não, e muitos filhos crescem sem saber ouvir não. A reflexão é da psicóloga portuguesa Vera de Melo, em artigo de opinião publicado em 3 de novembro pelo site Notícias ao Minuto. Para ela, poupar a criança de toda frustração não a protege, só empurra o problema para mais tarde.

Vera de Melo é psicóloga e comentadora do programa Dois às 10, da TVI, em Portugal. No texto, ela descreve uma geração de pais que tem pavor de que os filhos deixem de gostar deles e que, na tentativa legítima de não repetir os erros dos próprios pais, acaba cometendo outros.

Passado o desconforto, a rotina segue com a mesma regra – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Passado o desconforto, a rotina segue com a mesma regra – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Validar o choro não significa atender ao pedido

Segundo a psicóloga, muitas famílias passaram a confundir criação respeitosa com criação sem frustração. Validar uma emoção virou sinônimo de satisfazer um desejo, e estabelecer um limite passou a ser visto como ameaça à autoestima da criança.

Ela discorda dessa leitura. “Uma criança pode estar brava com os pais e continuar se sentindo profundamente amada”, escreve. Na mesma linha, a criança pode chorar porque não ganhou o que queria sem que isso seja um trauma, e pode ouvir um não sem carregar uma ferida emocional.

A frustração também ensina

De acordo com Vera de Melo, é justamente na convivência com os adultos que a criança aprende a tolerar a frustração, a esperar pela recompensa e a perceber que o mundo não gira em torno das suas vontades. A segurança emocional, diz ela, nasce da previsibilidade, da consistência e de adultos que acolhem o choro sem abrir mão de orientar.

A ciência do desenvolvimento vai na mesma direção. O Centro para a Criança em Desenvolvimento da Universidade Harvard explica, em um resumo sobre as funções executivas, que as crianças não nascem com autocontrole, e sim com o potencial de desenvolvê-lo. Para o centro, as relações com os adultos estão entre os fatores decisivos nesse aprendizado.

Por que pais cansados e culpados acabam cedendo?

A psicóloga descreve pais que negociam tudo, justificam cada decisão, pedem desculpas por impor regras e se sentem culpados quando o filho fica frustrado. Muitos cresceram em casas onde não havia espaço para sentir e agora, observa ela, constroem casas onde não há espaço para frustrar.

No dia a dia, o cansaço pesa. Depois de um expediente longo, ceder ao pedido de mais tela ou ao doce na fila do supermercado parece o caminho mais curto para ter paz. Quem cria sozinho sente isso ainda mais, e por isso apoiar mães solo na rotina também ajuda a sustentar os combinados com as crianças.

Limite com afeto não é autoritarismo

Vera de Melo deixa claro que a saída não é voltar à autoridade cega nem ao medo. Na visão dela, os adultos são responsáveis pela relação com os filhos, mas também pela direção. A criança não precisa ganhar todas as discussões; precisa saber que continua amada mesmo quando perde.

O efeito aparece fora de casa. Crianças acostumadas a regras claras tendem a lidar melhor com a convivência, como mostra a análise sobre crianças que viram líderes na escola e cumprem combinados em casa.

O não dito hoje prepara para a vida

Na prática, dá para dizer não com calma, explicar uma vez, acolher o choro sem voltar atrás e manter a mesma regra no dia seguinte. A psicóloga resume o risco de evitar esse desconforto: “Estamos apenas adiando o momento em que a vida vai dizer não a eles”. E a vida, lembra ela, ao contrário dos pais, não costuma explicar duas vezes.