Psicólogo de 79 anos: “Os casais mais estáveis não são os mais compatíveis, mas os que têm mais maturidade para lidar com as pequenas diferenças”
Antoni Bolinches lista as quatro bases de uma relação e o sinal de alerta que vale também para amizades
Os casais mais estáveis não são, necessariamente, os que mais combinam em tudo. Para o psicólogo espanhol Antoni Bolinches, de 79 anos, o que sustenta uma relação ao longo do tempo é o grau de maturidade dos dois para lidar com as pequenas divergências do dia a dia, mais do que a compatibilidade em si.
Nascido em Barcelona em 1947, Bolinches falou sobre amor, sorte e felicidade em entrevista à jornalista Anna Calpe, publicada no domingo (1) pelo jornal La Vanguardia e reproduzida em catalão pela rádio RAC1. Ele acaba de lançar um livro com Álex Rovira e Francesc Miralles, baseado no podcast que os três apresentam.

As quatro bases de uma relação, segundo o psicólogo
Quando perguntado sobre como saber se escolhemos bem quem está ao nosso lado, Bolinches descreve quatro pilares: um bom encaixe sexual, temperamentos compatíveis, uma escala de valores parecida e um projeto de vida que caminhe na mesma direção.
Logo em seguida, ele acrescenta o ponto central. “Mas ainda mais relevante é o grau de maturidade das duas partes para administrar as pequenas divergências em cada um desses quatro pontos”, afirma. Para ele, o importante é lidar bem com as diferenças, manter o respeito e conseguir ser você mesmo estando com o outro.
Diferença de opinião acaba com um casal?
Nem sempre. O psicólogo diz que, em temas como política, o que conta de novo é a maturidade para lidar com o desacordo. Se as posições forem muito opostas e as pessoas, muito fanáticas, elas provavelmente nem chegariam a formar um casal.
Ele usa o futebol como exemplo: um torcedor do Barcelona e outro do Real Madrid podem viver juntos sem problema, a não ser que sejam fanáticos. No Brasil, seria algo como um corintiano casado com uma palmeirense. “Quanto maior a divergência e menor o grau de maturidade, mais inviável é a relação”, resume.
O sinal de alerta que vale para o amor e para a amizade
Bolinches aponta um limite claro. Quando alguém começa a trair os próprios princípios ou valores para não perder uma relação, é hora de acender o alarme. Segundo ele, quem precisa muito ser amado às vezes deixa de ser quem é para agradar, e esse costuma ser o pior investimento da vida.
Conversar sobre o que incomoda sem atacar o outro exige uma habilidade que nem todo mundo treinou. A Catraca já mostrou por que, segundo a psicóloga Beatriz Ruiz, é impossível ter uma boa conversa com quem não tem inteligência emocional, e a ideia conversa diretamente com a de Bolinches.
Maturidade também se aprende com o tempo
Para o psicólogo, a maturidade pessoal é uma marca de quem consegue ser feliz. Quem enfrenta as próprias dificuldades e aprende com elas sofre menos na próxima vez, e o mesmo vale para os amores vividos, que ensinam a fazer escolhas melhores no futuro.
Ele também defende o que chama de egoísmo positivo: reconhecer o direito às próprias satisfações sem prejudicar o outro. E vai além ao dizer que, quando alguém é muito maduro, pode aceitar perder um pouco para que o parceiro ganhe muito.
Como levar essa ideia para o dia a dia do casal
Na prática, ajuda separar o que é uma divergência pequena, como horários, arrumação da casa ou o canal da TV, do que é diferença de valores. As primeiras pedem negociação e paciência dos dois lados. As segundas merecem uma conversa franca sobre o que cada um não abre mão.
Se as brigas se repetem sempre pelos mesmos motivos, a terapia de casal pode ajudar. No Brasil, o atendimento deve ser feito por psicólogo com registro no Conselho Regional de Psicologia, e saber a diferença entre psicólogo e psiquiatra facilita a escolha do profissional certo.