Psiquiatra sobre o excesso de pensamentos: “Na ruminação, a velocidade da mente é difícil de frear”
Pensar muito não é defeito; o sinal de alerta é não conseguir desligar quando a pessoa quer
O excesso de pensamentos não é apenas pensar demais. Para a psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, o problema começa quando a cabeça entra num ritmo acelerado e não obedece ao pedido de parar: segundo ela, nesse estado “a mente produz ideias de forma constante, rápidas e difíceis de deter”. É o que os especialistas chamam de ruminação cognitiva.
Médica psiquiatra e autora de livros de bem-estar emocional muito lidos na Espanha e na América Latina, Rojas Estapé explicou o fenômeno em reportagem do jornal argentino Clarín, que também se apoiou numa matéria do site espanhol Vanitatis. A boa notícia: ela acredita que dá para sair desse ciclo.

Pensar muito não é o problema
A psiquiatra insiste num ponto que alivia muita gente: ter uma mente ativa não é defeito. A dificuldade aparece quando a pessoa quer desligar e não consegue. O foco, segundo a reportagem, está menos no conteúdo das ideias e mais na relação que se cria com elas. Quanto mais a pessoa tenta frear, mais força os pensamentos parecem ganhar.
Esse estado funciona como um alarme interno ligado o dia inteiro. Com o tempo, ele leva ao desgaste e, nos casos mais extremos, ao burnout, aquela sensação de estar esgotado no corpo, na mente e nas emoções.
Como a ruminação aparece no dia a dia
No plano mental, surgem a ruminação, a mania de antecipar cenários quase sempre catastróficos e a dificuldade de se concentrar numa coisa só. No emocional, o que se vê é irritação, saturação e frustração por não conseguir desligar a cabeça. Quem já ficou remoendo uma conversa antiga, como no velho conselho de Sêneca de que sofremos mais na imaginação do que na realidade, conhece bem esse roteiro.
O corpo também sente. Rojas Estapé lembra que mente e corpo andam juntos, por isso não é raro aparecerem tensão muscular, cansaço, problemas de sono e sensação de esgotamento até em dias sem muita atividade.
Por que a mente acelera tanto?
A especialista aponta uma combinação de fatores bem conhecidos. O primeiro é a enxurrada de estímulos, sobretudo do mundo digital, que empurra todo mundo para o multitarefa e para a obrigação de estar sempre disponível. Notificação, mensagem de trabalho fora de hora e rolagem infinita alimentam esse ritmo.
Traços de personalidade entram na conta, como o perfeccionismo e a autoexigência. A tendência à ansiedade reforça o mecanismo: a mente passa a buscar certezas, repassa conversas, tenta resolver o impossível e prevê cenários ruins. Vale olhar com calma para as questões que precisam ser investigadas antes de tratar a ansiedade como um problema isolado.
O que ajuda a frear a velocidade da mente
O primeiro passo, segundo a psiquiatra, é não se obrigar a parar de pensar nem buscar uma mente totalmente em branco. A estratégia é aprender a tomar distância dos pensamentos e não acreditar em tudo o que passa pela cabeça. Entre os recursos citados na reportagem estão:
- respirar mais devagar ou praticar alguma técnica de relaxamento;
- caminhar com calma;
- voltar ao presente, prestando atenção em sons, texturas, cores e cheiros ao redor;
- reduzir o tempo de tela.
Outro recurso simples é escrever as tarefas pendentes numa agenda ou num caderno. Tirar a lista da cabeça e colocar no papel diminui a carga mental, sobretudo à noite, antes de deitar.
Quando o excesso de pensamentos pede ajuda profissional
Se os pensamentos repetitivos atrapalham o sono, o trabalho ou as relações por semanas, é hora de conversar com um profissional. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde lista a falta de controle sobre pensamentos que se repetem contra a vontade entre os sinais dos transtornos de ansiedade e indica procurar a unidade de saúde mais próxima. No SUS, a porta de entrada é a UBS, que pode encaminhar para psicólogo, psiquiatra ou CAPS.
Na prática, a síntese é esta: pensar muito não é doença, mas não conseguir parar merece atenção. Respire, caminhe, anote o que está pendente e, se a cabeça seguir a mil, peça ajuda. Em momentos de angústia, o CVV atende de graça, dia e noite, pelo telefone 188.