Quebrada Também Treina: coletivo leva esporte gratuito para a periferia de São Paulo
Criado no Jaraguá, em SP, o QTT nasceu da vontade de aproximar a atividade física do território e hoje promove corridas e treinos funcionais gratuitos
Para o coletivo Quebrada Também Treina (QTT), praticar atividade física vai muito além de correr ou fazer exercícios. É também uma forma de criar vínculos, ocupar espaços públicos e fortalecer o sentimento de pertencimento ao território.
A história começou a partir de uma inquietação de Denis Marques e de outras pessoas que precisavam atravessar a cidade para encontrar um lugar onde pudessem treinar e, ao mesmo tempo, fazer parte de uma comunidade.
Antes da criação da QTT, o grupo se deslocava até a Escadaria da Sumaré, em São Paulo, para participar dos treinos de uma crew que posteriormente deixou de existir. Foi justamente durante essas viagens que surgiu a ideia que daria origem ao coletivo.
“Se a gente se deslocava para tão longe em busca de movimento e comunidade, por que não levar essa mesma estrutura para a nossa própria casa? Por que a periferia também não podia ter o seu próprio ponto de encontro com o esporte?”, conta Denis.
A pergunta se transformou em projeto. Em fevereiro de 2020, no bairro do Jaraguá, na zona noroeste de São Paulo, nascia o Quebrada Também Treina.

Treinar perto de casa também é uma questão de acesso
Desde o início, uma das principais propostas da QTT foi mostrar que o acesso à atividade física não deveria depender de grandes deslocamentos ou de uma estrutura cara.
“Nosso propósito central é escancarar as portas do esporte: oferecemos corridas em grupo e treinos funcionais totalmente gratuitos, mostrando na prática que a quebrada tem potencial e merece acesso à atividade física de qualidade no seu próprio quintal”, explica Denis.
A iniciativa começou pouco antes de a pandemia de Covid-19 alterar profundamente a rotina das cidades. Mesmo diante desse cenário, a ideia permaneceu como uma semente para um movimento que buscava aproximar saúde, esporte e comunidade.
A escolha de realizar os treinos no próprio território também carrega uma dimensão simbólica. Em vez de enxergar a periferia apenas como um lugar de passagem ou de carência de equipamentos, a QTT procura evidenciar as possibilidades existentes dentro dela.
A rua, a praça e outros espaços do cotidiano passam a ser também lugares para encontrar pessoas, movimentar o corpo e construir relações.

Corrida e treino funcional gratuitos
As atividades da QTT são centradas principalmente em corridas em grupo e treinos funcionais, sem cobrança dos participantes.
A proposta permite que pessoas com diferentes níveis de experiência se aproximem do esporte. Mais do que buscar desempenho, a iniciativa aposta na experiência coletiva como porta de entrada para uma rotina mais ativa.
Essa característica também ajuda a romper uma percepção de que determinadas modalidades esportivas são inacessíveis ou dependem de equipamentos sofisticados, academias ou mensalidades.
Para Denis, democratizar o esporte significa justamente aproximá-lo da vida cotidiana. “Ver essa ideia criar raízes e crescer é o nosso maior orgulho.”

Uma comunidade construída para além dos treinos
Com o passar do tempo, o QTT deixou de ser apenas um grupo de pessoas que se encontrava para correr ou treinar. Os encontros passaram a criar uma rede de relações que se fortaleceu a partir da convivência.
Em 2023, o coletivo celebrou seu aniversário de três anos com uma festa realizada no próprio território. A comemoração reuniu elementos que traduzem a essência do projeto: camisetas, medalhas, frutas e água depois da prova.
Mais do que marcar uma data, a celebração simbolizou os caminhos percorridos desde a criação do grupo e a participação de quem ajudou a construir essa trajetória.
Cada treino, corrida e encontro contribui, assim, para uma ideia maior: a de que o esporte pode ser uma ferramenta de aproximação entre pessoas que compartilham o mesmo território.

O coletivo também cria pontes pela cidade
Embora o Jaraguá continue sendo a casa da QTT, a atuação do coletivo não ficou restrita ao bairro.
Atualmente, o grupo participa de ações e treinos em parceria com outras crews, ocupando diferentes regiões de São Paulo e ampliando a rede construída por meio do esporte.
A estratégia cria uma espécie de circuito comunitário em que diferentes grupos podem se encontrar, trocar experiências e fortalecer iniciativas independentes ligadas à atividade física.
Quando a atividade física também produz pertencimento
A trajetória do Quebrada Também Treina mostra como uma iniciativa esportiva pode assumir outros significados quando nasce dentro do próprio território.
A corrida e o treino funcional são o ponto de partida, mas a experiência construída pelo coletivo envolve convivência, acesso, ocupação dos espaços e formação de vínculos.
Ao levar os treinos para perto de onde as pessoas vivem e retirar o custo como barreira de entrada, a QTT transforma a prática esportiva em uma experiência mais acessível e comunitária.
A mensagem que começou no Jaraguá continua circulando pela cidade: a periferia também pode ser lugar de esporte, saúde, encontro e pertencimento, e não precisa esperar que essas possibilidades venham de fora para começar a construí-las.