Roberto Colom, catedrático de psicologia: “O Exército dos Estados Unidos não recruta ninguém com QI abaixo de 83”
O psicólogo explica o critério das Forças Armadas americanas e o que um teste de inteligência mede
O psicólogo espanhol Roberto Colom resumiu em uma frase um critério pouco conhecido das Forças Armadas americanas: segundo ele, o Exército dos Estados Unidos não recruta ninguém com QI abaixo de 83, porque as decisões em combate são arriscadas demais. A declaração foi destacada pelo jornal espanhol El Economista e reacendeu a discussão sobre o que um teste de inteligência realmente mede.
Colom é catedrático de psicologia diferencial na Universidad Autónoma de Madrid, área que estuda por que as pessoas diferem em habilidades como raciocínio, memória e compreensão verbal.

O que diz a regra citada pelo psicólogo
Os militares americanos não aplicam um teste de QI clássico. O filtro de entrada é o AFQT (Armed Forces Qualification Test), nota calculada a partir de partes da bateria ASVAB, que avalia vocabulário, leitura e raciocínio matemático. O resultado sai em percentil, ou seja, mostra a posição do candidato em relação a uma população de referência.
A lei federal americana usa justamente essa escala. A seção 520 do Título 10 do Código dos Estados Unidos, disponível no Legal Information Institute da Universidade Cornell, limita a 4% a parcela de recrutas que ficam entre o 10º e o 31º percentil, teto que pode subir para 20% com autorização do secretário de Defesa. Quem não concluiu o ensino médio precisa atingir pelo menos o 31º percentil. A conversão desses percentis para um número de QI, como o 83 citado por Colom, é uma aproximação, já que as duas provas não são iguais.
Por que o critério pesa tanto em combate?
Para Colom, o problema não é só aprender o básico, mas agir quando não há ordens claras: em combate, boa parte das decisões é tomada de forma autônoma, e abaixo desse patamar cresce a probabilidade de erro grave. Ele ressalva que isso não significa incapacidade, e sim um aumento estatístico do risco, e que o 83 deve ser lido dentro de uma margem, não como número exato.
Quando os Estados Unidos baixaram a régua
A história mostra o que acontece quando o critério é afrouxado. Durante a Guerra do Vietnã, o secretário de Defesa Robert McNamara lançou o Projeto 100.000, que passou a aceitar homens antes recusados por questões físicas ou mentais. Segundo reportagem do site espanhol Xataka, mais de 300 mil pessoas entraram por esse programa.
A mesma reportagem relata, com base no livro do veterano Hamilton Gregory, casos de recrutas que não sabiam ler, confundiam esquerda e direita e acabaram afastados do treino com armas. O episódio virou referência no debate sobre os limites do recrutamento.
O QI mede tudo o que uma pessoa sabe fazer?
Não. O QI é uma medida padronizada de raciocínio, memória de trabalho, compreensão verbal e velocidade de processamento. Um resultado abaixo da média não define o valor de ninguém nem a capacidade de aprender um ofício, cuidar da família ou se destacar em atividades práticas e criativas.
O desempenho na prova também sofre influência de escolaridade, domínio da língua do teste, cansaço e ansiedade no dia. Por isso, o número funciona como um retrato de habilidades específicas, e não como sentença. Quem quer manter a mente ativa ao longo da vida pode apostar em hábitos simples, como mostra a matéria sobre a atividade que pode ajudar a fortalecer a memória e estimular o cérebro.
No Brasil, testes de inteligência são de uso exclusivo de psicólogos, e o Conselho Federal de Psicologia mantém o Satepsi, sistema que avalia e lista os instrumentos aprovados para uso profissional. Testes rápidos de internet não têm esse aval e não servem como diagnóstico.
Uma régua de segurança, não um rótulo
A fala de Colom ajuda a entender que o corte americano nasceu de uma preocupação com segurança em situações extremas, e não de um julgamento sobre quem a pessoa é. Fora do campo de batalha, a inteligência aparece de muitas formas, e a ciência ainda está desvendando como o cérebro funciona, como mostram as pesquisas que comparam a forma como o cérebro humano processa a fala com modelos de inteligência artificial.
Para quem ficou curioso sobre o próprio desempenho, o caminho seguro é uma avaliação com psicólogo, que interpreta o resultado junto com a história de vida, a escolaridade e o momento de cada pessoa.