Saiba o que é o fenômeno Lázaro que pode explicar caso de bebê dado como morto

Especialistas explicam que episódios extremamente raros reforçam a importância dos protocolos médicos e da distinção entre morte aparente e morte biológica

O caso do bebê Noah Gabriel, em Rio Claro (SP), que voltou a apresentar sinais vitais após ter sido declarado morto, causou grande repercussão e levantou questionamentos sobre como a medicina confirma um óbito. Enquanto as circunstâncias do episódio seguem sob investigação, especialistas destacam que existem registros científicos de eventos raríssimos que demonstram como, em situações excepcionais, a avaliação clínica exige extremo cuidado.

Entre esses eventos está o chamado fenômeno de Lázaro, também conhecido como autorressuscitação. Trata-se de uma ocorrência incomum em que a circulação sanguínea retorna espontaneamente depois que as tentativas de reanimação são encerradas e o paciente é considerado morto.

Segundo a médica perita Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, esse fenômeno é conhecido pela ciência há décadas. “O fenômeno recebeu esse nome em referência à passagem bíblica da ressurreição de Lázaro e foi denominado oficialmente pelo médico Jack Bray em 1993, embora os primeiros relatos científicos sejam de 1982. Trata-se de um evento extremamente incomum. Até o fim de 2022, apenas 76 casos haviam sido documentados em 27 países, incluindo dez crianças”, explica.

Bebê Noah Gabriel voltou a apresentar sinais vitais cerca de duas horas após ter a morte constatada
Bebê Noah Gabriel voltou a apresentar sinais vitais cerca de duas horas após ter a morte constatada - arquivo pessoal

Caso de Noah ainda não pode ser classificado como fenômeno de Lázaro

Apesar das semelhanças, a especialista alerta que ainda não há elementos suficientes para afirmar que o caso do bebê se enquadra nesse diagnóstico.

“Nos registros científicos, o retorno da circulação costuma ocorrer poucos minutos após o encerramento da reanimação, com tempo mediano de aproximadamente cinco minutos. No caso de Rio Claro, foi divulgado um intervalo de cerca de duas horas, significativamente superior ao observado nos relatos médicos. Sem acesso ao prontuário e às informações clínicas completas, não é possível afirmar que se trata exatamente do fenômeno de Lázaro. O mais correto é dizer que esse é o quadro científico mais próximo do que foi observado.”

Segundo ela, qualquer conclusão definitiva depende da análise detalhada do prontuário, das manobras realizadas durante o atendimento e da evolução clínica do paciente.

O que pode explicar a autorressuscitação?

Embora ainda não exista uma resposta única para explicar esse tipo de ocorrência, pesquisadores trabalham com algumas hipóteses.

Uma das principais teorias envolve mudanças na pressão dentro do tórax durante a reanimação cardiopulmonar. Após a interrupção das compressões, essa pressão pode diminuir, permitindo que o sangue volte a circular até o coração e restabeleça os batimentos espontaneamente.

Outras possibilidades incluem o efeito tardio de medicamentos utilizados durante a reanimação e alterações metabólicas importantes, como desequilíbrios nos níveis de potássio. No entanto, nenhuma dessas hipóteses consegue justificar todos os episódios descritos na literatura médica.

Casos podem ser mais frequentes do que os registros mostram

Outro ponto destacado pela especialista é que o fenômeno pode ser mais comum do que sugerem os estudos publicados.

“Há relatos de profissionais que afirmam já ter presenciado situações semelhantes, mas que nunca foram publicadas, muitas vezes por receio das repercussões jurídicas e éticas. Isso significa que o fenômeno pode ocorrer com frequência um pouco maior do que os registros científicos indicam.”

A subnotificação dificultaria a compreensão da real incidência desse evento e dos mecanismos envolvidos em sua ocorrência.

Entenda a diferença entre morte aparente e morte definitiva

O episódio envolvendo Noah também chama atenção para um conceito importante da medicina: a distinção entre morte aparente e morte biológica.

Na morte aparente, os sinais vitais podem estar extremamente reduzidos, tornando difícil sua identificação pelos métodos disponíveis naquele momento. Já a morte biológica representa a interrupção irreversível das funções vitais.

Para Caroline Daitx, compreender essa diferença é fundamental. “Na morte aparente, os sinais vitais podem estar extremamente reduzidos e imperceptíveis aos métodos disponíveis naquele momento, embora a morte irreversível ainda não tenha ocorrido. Já a morte real representa a perda definitiva das funções vitais. Casos como esse mostram que essa fronteira nem sempre é absoluta e dependem da capacidade da medicina de identificar esses sinais com precisão.”

Protocolos rigorosos ajudam a reduzir riscos

Especialistas ressaltam que situações excepcionais como essa reforçam a importância de protocolos rigorosos para confirmar um óbito.

Ao longo dos anos, a medicina incorporou métodos cada vez mais precisos para reduzir o risco de erros e garantir que a constatação da morte ocorra de forma segura.

Nesse contexto, a perita destaca que episódios raros não representam uma falha da ciência, mas sim um incentivo ao aperfeiçoamento contínuo dos procedimentos médicos.

“Esses episódios não significam que a ciência falhou. Pelo contrário: mostram a importância da revisão constante dos protocolos, do aperfeiçoamento dos métodos diagnósticos e da investigação cuidadosa sempre que situações excepcionais acontecem.”

Ciência e fé podem coexistir diante de acontecimentos extraordinários

Além das discussões médicas, o caso também despertou diferentes interpretações entre a população. Enquanto algumas pessoas enxergam a recuperação de Noah como um milagre, outras a associam a um fenômeno biológico extremamente raro.

Na avaliação da especialista, essas duas perspectivas não são necessariamente incompatíveis.

“A ciência oferece explicações, hipóteses e, sobretudo, a honestidade de reconhecer aquilo que ainda não conhece completamente. A fé oferece esperança e significado diante de acontecimentos extraordinários. Não há necessariamente uma oposição entre essas visões. O caso de Noah nos lembra que a medicina avançou enormemente, mas ainda existem fenômenos que continuam desafiando o conhecimento humano. Talvez a principal lição seja justamente essa: reconhecer que ainda há muito a aprender sobre os limites entre a vida e a morte”, finaliza.