Segundo a psicologia, quem tem QI alto talvez não precise de menos amigos, mas vê-los mais vezes não aumenta sua felicidade como ocorre com a maioria

Estudo de 2016 mostra uma associação, não uma regra, e ajuda a separar solidão escolhida de isolamento

Pessoas com QI alto e amigos: a relação pode ser diferente da que a maioria vive. Um estudo publicado em 2016 no British Journal of Psychology indica que, para quem tem pontuação mais alta em inteligência, ver os amigos com mais frequência não aumenta a satisfação com a vida do mesmo jeito que aumenta para as outras pessoas. Isso não quer dizer que elas precisem de menos amizades.

A pesquisa voltou a circular numa reportagem da Rádio Mitre, da Argentina. Os autores são os psicólogos evolucionistas Norman Li e Satoshi Kanazawa, e o resumo oficial do trabalho está no repositório da Universidade de Gestão de Singapura, instituição de Norman Li.

Para muita gente, poucos encontros com amigos próximos já bastam – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Para muita gente, poucos encontros com amigos próximos já bastam – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que o estudo encontrou

Segundo a Rádio Mitre, a pesquisa reuniu respostas de mais de 15 mil adultos jovens. No geral, quem passava mais tempo com outras pessoas relatava mais satisfação com a vida. Entre os que tiveram as notas mais altas em inteligência, porém, essa ligação ficava mais fraca e, em alguns casos, se invertia.

O resumo do artigo diz isso de forma direta: entre os extremamente inteligentes, a associação se inverte, e eles relatam menor satisfação com a vida quando socializam com mais frequência. O mesmo trabalho também encontrou que morar em lugares mais densamente povoados está ligado a menos satisfação.

Por que isso aconteceria?

Li e Kanazawa propõem a chamada teoria da savana da felicidade. Segundo o resumo do artigo, a satisfação com a vida dependeria não só das consequências atuais de uma situação, mas também das que ela teria tido no passado ancestral da espécie. A teoria tenta explicar por que esse peso do passado pode variar conforme a inteligência de cada um.

A reportagem argentina ressalta que o resultado observado não depende só dessa hipótese evolutiva. A análise também levou em conta traços de personalidade, como a introversão. A conclusão não é que pessoas inteligentes dispensem amigos, e sim que o contato frequente não traz a elas o mesmo bem-estar.

Ficar em casa não é o mesmo que estar isolado

Escolher passar a noite sozinho, lendo ou tocando um projeto, não significa sentir solidão. A diferença está no desejo. A psicóloga Barbara Blatchley, citada pela rádio, resume: “Se estamos sozinhos porque queremos, a experiência da solidão escolhida não é desagradável nem negativa”.

Uma agenda lotada de almoços, aniversários e jantares também cobra seu preço. Nem sempre aparece como cansaço evidente: às vezes é a sensação de ter perdido o fio de uma ideia. Com a chegada das confraternizações de fim de ano no Brasil, muita gente reconhece esse aperto.

Quais são os limites da pesquisa?

O estudo mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito. Ele mediu a satisfação relatada pelos próprios participantes, todos adultos jovens, e é de 2016. A teoria da savana é uma proposta dos autores, discutida dentro da psicologia evolucionista, e não uma regra para classificar ninguém.

Por isso, não dá para usar o resultado como rótulo. Gostar de ficar sozinho não prova inteligência, e quem adora encontrar os amigos toda semana não é menos inteligente por isso. Como lembrou o filósofo Schopenhauer em frase famosa, o que importa é como cada um usa o próprio tempo.

Qualidade das amizades vale mais que a frequência

A pesquisadora Aigerim Alpysbekova, ouvida na reportagem, defende que a proximidade emocional importa mais do que a quantidade de nomes no círculo. Para algumas pessoas, poucos vínculos fortes e encontros mais espaçados bastam. É a mesma lição da reflexão do Pequeno Príncipe sobre os vínculos: o que torna alguém importante é o tempo dedicado a essa relação, não o número de encontros.

Na prática, o que conta é separar uma preferência genuína da solidão que não foi escolhida. Se os vínculos continuam importantes, ver os amigos menos vezes pode ser só outro jeito de cuidar deles. Se a falta de contato pesa e traz tristeza, vale conversar com alguém de confiança ou procurar um psicólogo.