Ser contra dietas significa fazer apologia à obesidade?

Por mais que possa parecer contraditório, não há nada que colabore mais para a manutenção da obesidade que dietas

Por: Marcela Kotait
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Em meu consultório, ouço inúmeras histórias de frustração e fracasso de pacientes que, após abandonar dietas, recuperaram o peso corporal perdido. Talvez esse desfecho comum possa ajudar céticos a compreender a abordagem nutricional que pratico, que é não prescritiva, ou seja, uma abordagem contra dietas. E ela não tem nada a ver com apologia à obesidade. Muito pelo contrário. Na verdade, por mais que possa parecer contraditório, não há nada que colabore mais para a manutenção da obesidade que dietas.

Deixe-me esclarecer, antes de tudo, que a experiência que tenho com meus pacientes em meu consultório não é nada excepcional. Para a maioria das pessoas que emagrecem intencionalmente por meio de restrições alimentares ou dietas, é comum recuperar o peso perdido logo após o fim do regime. É difícil defender o sucesso de qualquer dieta. Se alguma delas realmente funcionasse, não haveria tanta oferta de novos produtos e alimentos ditos milagrosos para controle e perda de peso.

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Crédito: Eva-Katalin/istock Dietas colaboram para a manutenção da obesidade

Dietas pioram a relação do indivíduo com seu corpo e atrapalham a conexão que precisamos ter com ele, gerando medo de sentir fome, culpa ao comer determinados alimentos, e aquele sentimento característico de “tudo ou nada”; ou seja, a restrição é interrompida por episódios de comer justamente o que não estava prescrito.

Mas se dietas não funcionam, qual a alternativa? Enquanto o modelo tradicional de nutrição tem como regra básica a prescrição de um cardápio contendo o que, quanto e quando se deve comer, na abordagem contra dietas o objetivo é dar autonomia e responsabilidade ao paciente para que ele escolha se alimentar de maneira verdadeiramente saudável.

Na abordagem contra dietas, a proibição e seu efeito colateral, a permissividade, são substituídas pela permissão. No lugar de não se poder comer nada (e sua gangorra de abandonar a restrição e lançar-se ao comer tudo em grandes quantidades), a ideia é focar no conceito de poder comer de tudo dependendo da avaliação dos motivadores, do respeito aos sinais do corpo, do entendimento do contexto, e da frequência. Nada é estipulado pelo nutricionista; tudo é responsabilidade conjunta com o paciente.

Dessa forma, ao contrário do que se pode imaginar sobre a abordagem contra dietas, no sentido de taxá-la como sinônimo de o paciente comer qualquer coisa de qualquer jeito e em qualquer horário, o que se espera dele, no fundo, é uma postura muito mais comprometida e atenta. O processo de comer sem dietas é bastante intenso, pois saber fazer escolhas inteligentes, com liberdade, atenção e poder não é algo simples e nem necessariamente rápido, mesmo que possível.

Com novos comportamentos e mais atenção não só ao que se come, e sim à maneira pela qual se come, deixar de fazer dieta tende a trazer consequências e resultados mais saudáveis e sustentáveis no longo prazo. A tão cobiçada perda de peso corporal pode ser uma das consequências desse processo, mas não a única. Junto com ela podem vir também aumento no consumo de alimentos menos processados, adesão a atividades físicas, e melhor relação e entendimento da forma corporal, substituindo o ódio ao próprio corpo ao respeito a ele.

Quando se é contra dietas, as refeições transformam-se em momentos de autocuidado. Ainda mais importante: favorecemos a intuição e o respeito na hora de se alimentar, construindo uma maneira mais verdadeiramente saudável e livre de comer e de lidar com o próprio corpo.

Texto escrito pela nutricionista Marcela Kotait.