William Arias, médico: “A camomila não é só bebida de vovó, é ferramenta poderosa para melhorar a qualidade do sono”

Revisão com 772 participantes mostra menos despertares, mas o chá não trata insônia nem serve para todos

O chá de camomila voltou ao centro da conversa sobre sono depois que o médico William Arias, que publica vídeos de saúde e alimentação no perfil @doctordeladieta, defendeu a bebida como algo mais sério do que um costume de família. “A camomila não é só uma bebida de vovó, é uma ferramenta poderosa que a ciência respalda”, disse ele, em fala reproduzida pela revista espanhola Trendencias.

A frase rodou a imprensa da Espanha nas últimas semanas. Na versão publicada pela revista Vitónica, o médico apresenta a camomila como ferramenta poderosa e aliada para melhorar a qualidade do sono. Os estudos dão razão a ele em parte. A infusão tem resultados interessantes para quem acorda muito durante a noite, mas está longe de ser remédio para insônia.

A Anvisa indica infusão de 5 a 10 minutos com flores secas – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
A Anvisa indica infusão de 5 a 10 minutos com flores secas – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que o médico defende

Segundo a Trendencias, Arias atribui o efeito à apigenina, um flavonoide presente nas flores da camomila. Ele também insiste na constância: para o médico, a bebida deve ser tomada com frequência por pelo menos duas semanas, e não só numa noite ruim.

A apigenina interage com receptores do cérebro ligados ao relaxamento, mas essa ligação foi observada principalmente em estudos de laboratório e com animais. Isso ajuda a explicar a fama do chá, sem provar que uma xícara funcione como um comprimido para dormir.

Onde a ciência concorda com ele

A revisão mais completa sobre o tema foi publicada em 2024 na revista científica Complementary Therapies in Medicine, por um grupo de pesquisadores liderado por Kazemi. Eles reuniram 10 estudos clínicos, com 772 participantes adultos, saudáveis ou com algum problema de saúde.

O resultado foi positivo em pontos específicos. Segundo a revisão, a camomila melhorou a nota da qualidade do sono num questionário padrão, o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh, e reduziu o número de despertares durante a noite em dois dos três estudos que mediram isso. A facilidade para pegar no sono melhorou em três de quatro estudos.

Onde ela pede calma

A mesma revisão de 2024 não encontrou melhora no tempo total de sono, na eficiência do sono nem no cansaço do dia seguinte. Os autores também apontam limites: só um dos estudos testou a pureza ou a potência do produto usado, e a maioria não buscou ativamente efeitos colaterais.

O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos, o NCCIH, ligado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), é ainda mais cauteloso. O órgão diz que há muito pouca informação sobre o efeito da camomila na insônia e cita uma revisão de 2019 que encontrou um único estudo sobre o distúrbio, sem benefício.

Ou seja: a camomila pode fazer parte de um bom ritual noturno. Tratar insônia é outra conversa, e quem passa semanas dormindo mal precisa de avaliação médica. Também ajuda olhar para outros pontos da rotina, já que dormir oito horas nem sempre garante um sono que descansa de verdade.

Como preparar o chá do jeito certo

No Brasil, a camomila aparece no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, da Anvisa. Para uso oral em adultos, o documento indica a infusão de 1,5 g a 4 g de flores secas em 150 ml de água, por 5 a 10 minutos.

Vale um detalhe: no formulário da Anvisa, a indicação oral da camomila é para queixas digestivas leves, como estufamento e espasmos leves, e não para o sono. Para quem quer usar o chá à noite, o mais sensato é tomá-lo com calma, longe das telas, e evitar café e outras bebidas com cafeína perto da hora de deitar. Há outros chás associados ao relaxamento que podem entrar no rodízio.

Quem deve evitar a camomila?

A planta é da família das margaridas. Segundo o NCCIH, pessoas alérgicas a plantas parecidas, como ambrósia, crisântemo, calêndula e margarida, têm mais chance de reagir. O formulário da Anvisa contraindica o uso para quem tem hipersensibilidade a essa família de plantas.

Quem toma anticoagulante também precisa de atenção. O NCCIH relata interações com a varfarina, e a Anvisa orienta não usar a camomila junto com esse tipo de remédio. Para grávidas e lactantes, segundo o órgão americano, ainda se sabe pouco sobre a segurança do uso.

Na dúvida, a conversa com o médico ou o farmacêutico resolve. Um chá não substitui tratamento, mas, bem usado, pode ser um bom jeito de encerrar o dia.