Para além do inverno, Serra Catarinense é destino para ir o ano todo

Com 18 municípios e 17% do território estadual, região diversifica atrações e fortalece negócios do turismo rural à silvicultura

Com aproximadamente 16 mil km² —o equivalente a 17% do território de Santa Catarina—, a Serra Catarinense vai além da fama de destino de inverno e consolida-se como uma das regiões mais plurais do sul do país.

Formado por 18 municípios reunidos pela Associação dos Municípios da Serra Catarinense (Amures), o território combina força econômica, diversidade cultural e um patrimônio natural marcado por cânions, cachoeiras, campos de altitude e matas de araucárias.

Vista da cachoeira do Salto Caveiras, na região rural de Lages (SC)
Vista da cachoeira do Salto Caveiras, na região rural de Lages (SC) - Paulo Chagas/Divulgação

Para além dos atrativos do turismo rural e de aventura, a região ostenta uma matriz econômica robusta. A produção local é impulsionada pela agropecuária, fruticultura, indústria de alimentos e bebidas, silvicultura e processamento de madeira e celulose, engrenagens que garantem dinamismo econômico ao longo de todo o ano.

Para compreender a amplitude dessa geografia e as particularidades de suas vocações locais, a reportagem dividiu o território em três grandes áreas. Embora não formem uma regionalização administrativa oficial, esse recorte permite explorar as identidades, as paisagens e as potencialidades turísticas que definem cada canto da serra.

Região dos Lagos

No extremo sul da Serra, encontra-se a chamada Região dos Lagos, formada especialmente pelos municípios de Anita Garibaldi, Campo Belo do Sul, Capão Alto e Cerro Negro.

A identidade dessa área está fortemente relacionada aos grandes reservatórios formados pela implantação de empreendimentos hidrelétricos. A partir dessa transformação da paisagem, surgiu também uma nova possibilidade de aproveitamento turístico e econômico dos lagos, com iniciativas voltadas ao planejamento e à estruturação do chamado Parque dos Lagos. O projeto reúne cerca de 3.500 km² e nasceu justamente da percepção de que os reservatórios poderiam ser transformados em ativos para o desenvolvimento regional.

Marina na Região dos Lagos, entre Abdon Batista e Cerro Negro
Marina na Região dos Lagos, entre Abdon Batista e Cerro Negro - Paulo Chagas/Divulgação

É uma região com forte vocação para o turismo de natureza, pesca, lazer náutico, turismo rural, gastronomia, experiências no campo e atividades ligadas à contemplação das paisagens. Ao lado disso, possui expressiva produção agropecuária e espaço para novos investimentos em infraestrutura turística, hospedagem, gastronomia e experiências vinculadas ao meio rural.

O lugar fortemente trabalhado pela Agência de Desenvolvimento da Região dos Lagos (ADREL) representa, portanto, uma Serra ainda pouco explorada em todo o seu potencial turístico. É uma área estratégica para a diversificação da oferta turística catarinense, especialmente por apresentar uma paisagem diferente daquela tradicionalmente associada aos cânions e às altas montanhas.

Região Central

No coração da Serra Catarinense está a região que tem Lages como principal centro urbano e econômico, articulando os municípios de Bocaina do Sul, Correia Pinto, Lages, Otacílio Costa, Painel, Palmeira, Ponte Alta e São José do Cerrito.

Lages exerce papel de polo regional, concentrando comércio, serviços, educação, saúde, eventos, logística e atividades empresariais que atendem não apenas ao município, mas a uma extensa área do território serrano.

A Catedral Diocesana, na região central de Lages; cidade é a porta de entrada da Serra Catarinense
A Catedral Diocesana, na região central de Lages; cidade é a porta de entrada da Serra Catarinense - Paulo Chagas/Divulgação

É também uma região marcada pela força do agronegócio, da pecuária, da madeira, da silvicultura, da indústria e do turismo rural. A própria história de Lages está profundamente relacionada à atividade tropeira, à criação de gado e à cultura do campo, elementos que permanecem presentes na identidade regional.

Nesse território, encontra-se uma combinação importante entre economia tradicional e novas oportunidades. A produção agropecuária convive com empreendimentos industriais, serviços especializados, eventos, gastronomia, turismo de experiência, cicloturismo e propriedades rurais abertas à visitação.

Fazenda Nosso Senhor do Bom Fim, em São José do Cerrito
Fazenda Nosso Senhor do Bom Fim, em São José do Cerrito - Paulo Chagas/Divulgação

Lages também funciona como uma espécie de porta de entrada e centro de distribuição de visitantes para diferentes destinos serranos. A criação de novas rotas turísticas reforça essa integração. Um exemplo é a Rota do Cicloturismo da Serra Catarinense, ainda em fase embrionária, que irá conectar Lages a Bocaina do Sul, Rio Rufino, Bom Retiro, Urupema, Urubici, Bom Jardim da Serra, São Joaquim e Painel, em um percurso de aproximadamente 600 quilômetros.

Assim, a região central possui papel fundamental na estratégia de desenvolvimento da Serra: é onde se encontram a força econômica, a infraestrutura urbana e de serviços e uma ampla base para a conexão entre os diferentes destinos turísticos.

Região de Altitude

No setor de maior altitude da Serra Catarinense estão Bom Jardim da Serra, Bom Retiro, Rio Rufino, São Joaquim, Urubici e Urupema. É a região que mais projetou a Serra Catarinense no cenário nacional quando o assunto é frio, neve, paisagens de montanha e turismo de natureza.

Urupema é conhecida por ser a cidade mais fria do Brasil
Urupema é conhecida por ser a cidade mais fria do Brasil - Paulo Chagas/Divulgação

São Joaquim, Urupema, Urubici e Bom Jardim da Serra formam um dos principais corredores turísticos da região, reunindo atrativos como a Serra do Rio do Rastro, o Morro da Igreja, a Pedra Furada, cânions, cachoeiras, campos de altitude, trilhas e mirantes.

A altitude também criou condições para o desenvolvimento de uma atividade que transformou a economia e a imagem da região: a vitivinicultura de altitude. Vinícolas, experiências enogastronômicas, hospedagens diferenciadas e restaurantes passaram a integrar uma nova cadeia econômica, atraindo visitantes interessados não apenas no frio, mas também em vinho, gastronomia, cultura e experiências.

Experiência integrada

Estudos sobre o turismo regional apontam Urubici, Lages, Urupema, São Joaquim e Bom Jardim da Serra entre os municípios mais visitados da Serra Catarinense. O levantamento também destaca atrativos como o Morro da Igreja, em Urubici; o Morro das Antenas e a Cachoeira que Congela, em Urupema; a Vinícola Villa Francioni, em São Joaquim; e o Mirante da Serra do Rio do Rastro, em Bom Jardim da Serra.

Igreja da Matriz, em São Joaquim
Igreja da Matriz, em São Joaquim - Paulo Chagas/Divulgação

Mas a grande força dessa região está justamente na possibilidade de transformar diferentes produtos turísticos em uma experiência integrada: frio, neve, vinho, gastronomia, aventura, ecoturismo, turismo rural, observação da natureza, cicloturismo e hospedagem.

Na Serra Catarinense o turismo é o ano inteiro

Essa diversidade mostra que a Serra Catarinense, hoje identificada como marca, não pode ser compreendida apenas como um destino de inverno, e sim como uma de suas grandes potencialidades. O frio não é o seu único produto.

A região possui condições para trabalhar o turismo durante os 12 meses do ano, aproveitando diferentes estações e experiências. No verão, os cânions, trilhas, cachoeiras, rios e áreas rurais ganham protagonismo. No outono, as paisagens e a gastronomia criam novos atrativos. No inverno, o frio, a geada e a possibilidade de neve colocam a Serra no centro das atenções. Na primavera, flores, campos e atividades ao ar livre ampliam novamente as possibilidades.

Entrada da vinícola Leone di Venezia, que tem arquitetura inspirada na região italiana do Vêneto
Entrada da vinícola Leone di Venezia, que tem arquitetura inspirada na região italiana do Vêneto - Márcio Diniz/Catraca Livre

Essa diversidade se conecta diretamente à economia. Cada turista que chega movimenta uma cadeia que envolve hotéis, pousadas, restaurantes, vinícolas, produtores rurais, transportadores, guias, agências, comércio, artesãos, eventos e prestadores de serviços. E os números territoriais ajudam a dimensionar esse potencial.

Pousada Estação Corvo Branco, em Urubici
Pousada Estação Corvo Branco, em Urubici - Paulo Chagas/Divulgação

O grande desafio e, ao mesmo tempo, a grande oportunidade estão em fazer com que essas três áreas sejam percebidas como partes de um mesmo território turístico e econômico.

Juntas, essas três faces formam uma região capaz de oferecer muito mais do que belas paisagens. Formam um território de produção, empreendedorismo, cultura, inovação, hospitalidade e oportunidades de investimento.

A Serra Catarinense tem, portanto, todos os elementos para ampliar sua presença no cenário turístico nacional: território, identidade, natureza, cultura, gastronomia, produtos diferenciados e uma população que transforma as características da região em oportunidades de desenvolvimento.