Por que o corpo sofre durante voos longos e como evitar
Pressão da cabine, ar seco, trombose e jet lag estão entre os efeitos mais comuns das viagens aéreas; medidas simples ajudam a reduzir os riscos
Dor de ouvido durante a aterrissagem, pernas inchadas, dificuldade para dormir e sensação de cansaço mesmo após horas sentado são situações comuns para passageiros que enfrentam voos longos. Esses desconfortos têm relação com as adaptações que o organismo precisa fazer diante das mudanças de pressão, da baixa umidade do ar e dos longos períodos de imobilidade.
Em viagens internacionais, principalmente nas rotas que atravessam diferentes fusos horários, o corpo também precisa lidar com alterações no ciclo de sono. Algumas medidas adotadas antes e durante o voo podem reduzir os impactos dessas mudanças.

Uma das queixas mais frequentes está relacionada aos ouvidos e aos seios da face. Mesmo com a cabine pressurizada, as variações de pressão durante a decolagem e, principalmente, na aterrissagem exigem que o organismo faça uma compensação.
Quando há congestão nasal causada por gripes, alergias, rinite ou sinusite, esse processo pode se tornar mais difícil. “É importante viajar com as vias nasais desobstruídas para facilitar a equalização da pressão”, explica Oswaldo Lércio Cruz, otorrinolaringologista do Hospital Sírio-Libanês.
Pressão da cabine afeta ouvidos e circulação
Para reduzir o desconforto nos ouvidos, medicamentos antialérgicos ou descongestionantes podem ser indicados por médicos antes da viagem. Durante o voo, mascar chiclete, bocejar ou engolir saliva ajudam na equalização da pressão.
Outra estratégia é tomar um gole de água, tampar o nariz e engolir repetidamente. As medidas estimulam a abertura da tuba auditiva, canal responsável por equilibrar a pressão entre o ouvido médio e o ambiente externo.
Outro ponto de atenção em viagens prolongadas é a circulação sanguínea. Permanecer muitas horas na mesma posição aumenta o risco de trombose venosa profunda, especialmente em trajetos superiores a quatro horas.
A condição ocorre quando um coágulo se forma nas veias profundas das pernas e, em situações mais graves, pode se deslocar até os pulmões, causando uma embolia pulmonar. Idosos, gestantes e pessoas com histórico de trombose ou varizes precisam de atenção maior.

“Para reduzir o risco, é importante manter uma boa hidratação, evitar o consumo de bebidas alcoólicas, movimentar as pernas com exercícios de flexão e extensão dos tornozelos e das panturrilhas e, sempre que possível, levantar e caminhar a cada uma ou duas horas. Em alguns casos, o uso de meias de compressão também pode ser indicado”, afirma André Echaime Vallentsits Estenssoro, cirurgião vascular.
O uso de anticoagulantes para prevenção da trombose não é recomendado para todos os passageiros e deve ocorrer apenas após avaliação médica.
Baixa umidade interfere nas mucosas
A umidade dentro dos aviões costuma ser inferior à encontrada em ambientes terrestres. Como consequência, pele, olhos e mucosas podem ficar mais ressecados durante viagens prolongadas.
Para o pneumologista Elie Fiss, a redução da umidade interfere nos mecanismos naturais de proteção do sistema respiratório. “Quando as mucosas ficam ressecadas, elas perdem eficiência na defesa contra vírus e bactérias”, explica.
A principal recomendação para minimizar os efeitos é aumentar a ingestão de água antes, durante e após a viagem. Colírios lubrificantes podem ajudar no desconforto ocular, enquanto a higiene frequente das mãos contribui para reduzir o risco de infecções.
Pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), devem manter o uso regular das medicações prescritas. Segundo o especialista, a menor concentração de oxigênio na cabine pode favorecer o agravamento dos sintomas em alguns passageiros.
Mudança de fuso altera sono e alimentação
Em voos internacionais que atravessam vários fusos horários, o organismo também enfrenta o chamado jet lag. O distúrbio ocorre porque o relógio biológico continua ajustado ao horário de origem enquanto o destino segue um novo ciclo.
“Quando a gente muda bruscamente de fuso horário, o nosso relógio interno fica dessincronizado com o horário local”, explica o neurologista e especialista em sono Lucio Huebra.
Entre os sintomas mais comuns estão fadiga, insônia, sonolência durante o dia, alterações de humor e mudanças no apetite. Para reduzir os efeitos, a recomendação é ajustar gradualmente os horários de sono nos dias anteriores ao embarque e buscar exposição à luz natural após a chegada ao destino.
A alimentação também pode sofrer alterações durante o voo. A pressurização da cabine e o longo período sentado podem tornar a digestão mais lenta e favorecer desconfortos gastrointestinais.
“Refeições leves costumam ser melhor toleradas durante os voos”, afirma a nutricionista Daniela Castanho. A orientação é priorizar frutas, carnes magras e preparações com menos gordura, além de reduzir alimentos que favorecem a formação de gases.
Durante viagens prolongadas, manter a hidratação, movimentar o corpo e adaptar os horários de descanso estão entre as medidas indicadas para diminuir os efeitos causados pelo ambiente da aeronave.