Tem cerca de 30 mil habitantes, mas recebe mais de um milhão de turistas por ano: a cidade com grutas, cachoeiras e formações rochosas que parece saída de outro planeta
Grande parte da fama do destino vem dos rios de águas cristalinas da região da Serra da Bodoquena.
Rios tão transparentes que os peixes parecem suspensos no ar, cavernas inundadas, cachoeiras e enormes formações de calcário transformaram Bonito, em Mato Grosso do Sul, em uma das referências brasileiras de turismo de natureza. A cidade tem pouco mais de 22 mil habitantes, segundo a Secretaria Municipal de Turismo, e recebeu 293.712 turistas em 2025. Como cada visitante costuma realizar vários passeios, foram registradas 880.669 visitações aos atrativos ao longo do mesmo ano. Ou seja, o número próximo de um milhão corresponde às entradas nos passeios, não a um milhão de turistas diferentes.

Por que as águas de Bonito são tão transparentes?
Grande parte da fama do destino vem dos rios de águas cristalinas da região da Serra da Bodoquena. A geologia local é marcada por rochas calcárias, e os processos naturais associados a esse ambiente ajudam a manter muitos cursos d’água com alta transparência.
É isso que permite algumas das experiências mais conhecidas de Bonito, como as flutuações. Em vez de simplesmente nadar, o visitante coloca máscara e snorkel e segue lentamente com a correnteza, observando peixes e vegetação subaquática com enorme visibilidade.
Além das flutuações, a região oferece:
- mergulho com cilindro;
- trilhas em áreas naturais;
- cachoeiras e piscinas naturais;
- passeios de bote e boia-cross;
- cavernas e grutas abertas à visitação.
A prefeitura contabiliza dezenas de atrativos e atividades diferentes, fazendo com que uma mesma pessoa visite vários locais durante uma única viagem.
Gruta do Lago Azul e Abismo Anhumas ajudam a criar uma paisagem quase irreal
A Gruta do Lago Azul é provavelmente a imagem mais conhecida de Bonito. Depois de descer por uma escadaria entre formações calcárias, o visitante chega diante de um lago subterrâneo cuja água pode assumir um azul extremamente intenso dependendo das condições de luz.
Outro cenário impressionante é o Abismo Anhumas, uma enorme cavidade acessada verticalmente. No interior existe um lago subterrâneo onde são realizadas atividades como flutuação e mergulho. A combinação entre escuridão, paredões de pedra e água transparente cria um cenário que parece muito distante da paisagem encontrada na superfície.
Também existem atrações como a Gruta do Mimoso, onde é possível realizar flutuação dentro de uma caverna. É justamente essa variedade de ambientes, entre rios abertos e grandes cavidades subterrâneas, que dá a Bonito sua aparência tão incomum.

Como uma cidade pequena recebe tanta gente sem lotar os atrativos?
Uma das respostas está no Voucher Único, sistema implantado em Bonito em 1995. Os passeios trabalham com capacidade diária limitada, e as reservas são registradas antecipadamente por agências locais. Dessa maneira, não basta chegar a um rio ou uma gruta e entrar quando quiser.
O sistema permite saber quantas pessoas irão visitar cada atrativo em determinado horário e evita concentrações muito acima da capacidade estabelecida. Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Turismo, existem aproximadamente 9 mil vagas diárias somadas entre os diferentes passeios.
- cada atrativo possui limite de visitantes;
- os passeios são reservados previamente;
- as entradas são registradas pelo sistema;
- os valores são tabelados conforme período e atividade;
- a movimentação turística pode ser acompanhada estatisticamente.
Esse controle se tornou uma das características mais conhecidas da gestão turística de Bonito e ajuda a explicar como o destino consegue receber centenas de milhares de pessoas mantendo acesso organizado a ambientes naturais sensíveis.

Quase 900 mil visitações não significam 900 mil turistas diferentes
Essa distinção ajuda a entender os números de Bonito. Em 2025, foram 293.712 turistas, mas 880.669 visitações aos atrativos. Isso acontece porque uma pessoa que fica alguns dias na cidade normalmente realiza vários passeios e aparece diversas vezes nas estatísticas de visitação.
Em 2023, por exemplo, Bonito havia recebido 313.316 turistas, enquanto seus atrativos contabilizaram 909.605 visitações. Portanto, manchetes que aproximam o movimento local de um milhão precisam diferenciar fluxo de turistas de número total de entradas nos passeios.
Ainda assim, o contraste continua impressionante. Uma cidade com pouco mais de 22 mil moradores recebe todos os anos um número de turistas muitas vezes superior à sua população e possui uma estrutura turística com mais de 7 mil leitos.
Por que Bonito se tornou referência mundial em turismo de natureza?
Bonito não depende de uma única atração. Em poucos dias, um visitante pode flutuar em um rio transparente, caminhar ao lado de cachoeiras, entrar em cavernas, mergulhar e conhecer balneários cercados de mata. A concentração dessas experiências na região da Serra da Bodoquena criou um destino difícil de comparar com outras cidades brasileiras.
Mas parte da reputação também vem da tentativa de controlar o acesso a esse patrimônio. O Voucher Único, os limites de visitantes e o acompanhamento das visitações transformaram a gestão em elemento tão importante quanto as próprias paisagens. Em 2026, Bonito chegou a receber reconhecimento do Senado Federal por sua atuação ligada ao ecoturismo sustentável.
É essa combinação entre águas transparentes, grutas monumentais, cachoeiras e visitação controlada que explica como uma cidade pequena se tornou um dos maiores símbolos brasileiros do ecoturismo. Os números corretos não chegam a um milhão de turistas individuais por ano, mas quase 900 mil entradas anuais nos atrativos já mostram a dimensão de uma atividade turística enorme para um município desse tamanho.