Filha de família produtora de erva-mate viaja à China para estudar chá, percebe um detalhe na colheita e passa quase 20 anos desenvolvendo produto patenteado em mais de 20 países

Empreendedora gaúcha desenvolveu processo inovador para produzir bebidas com brotos de erva-mate e conquistou patentes internacionais.

Uma viagem à China levou Juliana Montagner a olhar de outro modo para a planta que conhecia desde criança. Sua família produzia erva-mate em Ilópolis, no Rio Grande do Sul, mas a bebida tradicional encontrava pouco espaço entre consumidores de outros países. Ao observar chás preparados com brotos jovens, ela viu uma possibilidade que exigiria quase duas décadas de desenvolvimento. O resultado foi um processo para transformar brotos de erva-mate em bebidas semelhantes aos chás verde e preto, com patentes no Brasil e em outros 20 países. Como uma tradição familiar ganhou uma apresentação diferente sem deixar de usar a mesma planta?

Viagem à China inspirou pesquisa que durou quase vinte anos.
Viagem à China inspirou pesquisa que durou quase vinte anos.Imagem gerada por inteligência artificial

O que a família de Juliana já sabia sobre erva-mate?

Os bisavós, imigrantes italianos, chegaram à região em 1886, e a produção da planta tornou-se parte da história familiar. Cerca de um século depois, seu pai participou da criação de uma indústria ervateira. Juliana cresceu nesse ambiente, onde colher, processar e vender folhas não eram abstrações. O conhecimento acumulado oferecia uma base, mas também podia tornar difícil imaginar um produto que escapasse do formato familiar do chimarrão.

Conhecer a cadeia produtiva não significava ter automaticamente um mercado fora do Brasil. A erva-mate já circulava internacionalmente, sobretudo acompanhando hábitos de brasileiros. Juliana queria entender por que a planta não atraía com a mesma facilidade quem não havia crescido com a cuia. Essa pergunta deslocou o foco da matéria-prima para a forma de apresentar e consumir o produto.

Que dado ela encontrou durante o MBA?

Ao pesquisar o consumo de erva-mate na Itália, onde fazia um MBA, encontrou a indicação de que aproximadamente 80% do produto comercializado naquele mercado era consumido por brasileiros. O percentual dizia respeito àquele levantamento e não a todos os países. Sugeria, entretanto, que estar à venda no exterior não era o mesmo que conquistar consumidores locais.

A criação de produtos que dialogam com materiais locais mostra como apresentação e público podem mudar o destino comercial de um recurso conhecido. Para Juliana, a questão não era abandonar a erva-mate, mas descobrir um modo de prepará-la reconhecível para pessoas habituadas a outra tradição de bebida.

Processos inovadores conquistaram patentes no Brasil e em outros 20 países.
Processos inovadores conquistaram patentes no Brasil e em outros 20 países.Imagem gerada por inteligência artificial

O que chamou atenção na colheita chinesa?

Numa expedição para estudar chás na China, ela observou o uso de brotos novos em produtos valorizados. A erva-mate tradicional costuma utilizar folhas mais maduras e segue processamento próprio. A diferença de parte colhida sugeria que selecionar brotos poderia alterar as possibilidades de bebida. A observação foi o começo de uma hipótese de trabalho, não a receita pronta do produto final.

De volta ao Brasil, seria necessário considerar características da planta, colheita e etapas de processamento. Um broto de erva-mate não se transforma automaticamente em chá verde apenas porque se parece com a folha usada em outro país. Juliana reuniu especialistas e trabalhou com consultor da Índia para desenvolver processos adaptados à matéria-prima brasileira. A descrição técnica do preparo a partir da erva-mate ajuda a entender a diferença entre ideia observada e método protegido.

Por que foram necessários quase vinte anos?

Testar colheita, secagem e outras etapas até obter sabor e apresentação consistentes exige repetição. Também era preciso demonstrar que uma bebida baseada em brotos de erva-mate poderia chegar ao público sem depender do ritual do chimarrão. A fonte descreve um desenvolvimento de quase duas décadas, mas não permite preencher cada ano com uma experiência específica ou atribuir um único laboratório a todo o percurso.

A família havia construído uma indústria ligada à forma tradicional de consumo. O projeto novo precisava conviver com essa história sem se limitar a ela. Processos para bebidas em estilos verde e preto deram outra possibilidade à planta. Os termos descrevem modos de processamento e apresentação; não autorizam confundir erva-mate com a espécie botânica usada nos chás clássicos de Camellia sinensis.

Qual foi o alcance das patentes?

Segundo o relato empresarial, os processos receberam proteção no Brasil e em outros 20 países. Houve também premiações em Paris. Patente não é prova de aceitação comercial em todos esses mercados, e um prêmio não informa volume de vendas. Os dados mostram esforço de desenvolvimento e reconhecimento de uma solução técnica, mantendo aberta a pergunta sobre a escala cotidiana do consumo.

O caminho iniciado com uma observação na colheita chinesa desembocou num produto que preserva a origem brasileira da planta. A passagem entre continentes não foi simples cópia: envolveu especialistas, experimentação e proteção de processos próprios. O contraste entre a cuia familiar e novas bebidas ajuda a explicar por que a invenção atraiu interesse.

O que permanece da tradição familiar?

Permanece a erva-mate cultivada e processada por gerações em Ilópolis. O que mudou foi a seleção de partes da planta e o modo de transformá-las em bebida. Juliana encontrou uma oportunidade ao perceber que um hábito nacional não bastava para conquistar outro público. A viagem ofereceu uma pergunta; o trabalho posterior construiu uma resposta técnica.

Essa história não termina com a afirmação de que o mundo inteiro já bebe o novo produto. Termina com uma possibilidade documentada: uma família que conhecia profundamente a planta encontrou uma forma diferente de apresentá-la, após quase vinte anos de pesquisa e desenvolvimento. O broto visto na China acabou mudando o que Juliana procurava no próprio quintal produtivo.