Macacos foram flagrados carregando filhotes de outra espécie durante vários dias e pesquisadores tentam explicar um comportamento nunca visto antes naquela população

Macacos-prego jovens foram registrados carregando filhotes de bugios no Panamá, comportamento incomum que provocou consequências graves.

Em uma ilha do Panamá, câmeras registraram uma cena que parecia contrariar a lógica de sobrevivência: jovens macacos-prego-da-cara-branca carregavam filhotes de bugios, outra espécie, por dias. Os pequenos não recebiam os cuidados necessários de suas mães, e alguns morreram. Pesquisadores analisaram as imagens divulgadas em 2025 para entender por que o comportamento surgiu e se espalhou entre machos jovens. A resposta ainda não é definitiva. O registro mostra como uma prática social pode se propagar mesmo quando não parece trazer vantagem clara aos animais envolvidos.

Comportamento incomum se espalhou entre alguns machos da mesma população.
Comportamento incomum se espalhou entre alguns machos da mesma população.Imagem gerada por inteligência artificial

O que as câmeras mostraram na ilha de Jicarón?

Elas registraram macacos-prego-da-cara-branca transportando filhotes de bugios na ilha de Jicarón, no Panamá. O comportamento chamou atenção porque não era conhecido naquela população e envolvia indivíduos de espécies diferentes. Os jovens machos mantinham os pequenos junto ao corpo por períodos prolongados. As imagens permitiram observar a repetição da prática, em vez de interpretar um encontro isolado como um padrão.

Chamar a cena de “adoção” pode induzir a uma conclusão errada: os filhotes dependiam da amamentação da própria espécie, e carregá-los não garantia cuidado suficiente. Tampouco se pode atribuir intenção humana aos macacos. A observação de jovens macacos carregando filhotes de outra espécie é uma oportunidade para perguntar como comportamentos novos surgem em grupos animais.

Separação das mães comprometeu a sobrevivência de parte dos filhotes.
Separação das mães comprometeu a sobrevivência de parte dos filhotes.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que os pesquisadores falam em propagação social?

Porque a prática apareceu em mais de um indivíduo depois dos primeiros registros. Uma hipótese é que outros jovens tenham observado e repetido a ação. A transmissão social não implica que todos compreendam as consequências nem que a novidade seja benéfica. Também não transforma cada macaco em inventor da mesma técnica. Para testar essa interpretação, é necessário comparar a sequência temporal, os indivíduos e o contexto de cada imagem.

O estudo considera perguntas que as câmeras ajudam a organizar:

  • Qual indivíduo foi filmado primeiro com um filhote?
  • Em que ordem outros macacos passaram a fazer o mesmo?
  • Quanto tempo cada filhote permaneceu longe da mãe?
  • Que riscos apareceram durante os registros?

O comportamento tem uma explicação confirmada?

Não há uma motivação individual demonstrada para todos os episódios. Pesquisadores discutem exploração de uma novidade, aprendizagem social e características do grupo, mas nenhuma hipótese autoriza dizer que os animais agiram “por maldade” ou por um propósito humano específico. O que as imagens confirmam é o transporte de filhotes de bugios por jovens macacos-prego e a repetição da prática naquela população.

A reportagem em vídeo ajuda a visualizar a diferença de tamanho entre os animais e o problema para os filhotes. Ela resume o estudo, enquanto a análise científica depende dos registros acumulados e de suas limitações. A palavra “sequestro”, comum em manchetes, descreve o afastamento, mas não explica a mente dos macacos.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube SBT News, que apresenta os registros dos macacos-prego transportando filhotes de bugios e as dúvidas da pesquisa:

Quais consequências foram observadas para os filhotes?

O afastamento das mães pode impedir a alimentação e comprometer a sobrevivência. Alguns filhotes não resistiram. Essa consequência é uma razão para tratar a cena com cuidado, em vez de descrevê-la como uma amizade improvável. Um comportamento incomum pode ser fascinante para a pesquisa e prejudicial para outros animais ao mesmo tempo. O estudo não transforma o sofrimento dos pequenos numa curiosidade sem contexto.

Também é difícil inferir todos os encontros entre grupos apenas por imagens de armadilhas fotográficas. As câmeras registram o que ocorre em seu campo de visão, e os pesquisadores precisam reconstruir a sequência a partir de fragmentos. Isso torna a interpretação prudente: há evidência de um padrão observado, mas nem todas as circunstâncias de cada separação foram filmadas.

O que a descoberta ensina sobre cultura animal?

Ela mostra que ações podem ser repetidas socialmente sem serem necessariamente adaptativas. A observação em Jicarón abre perguntas sobre imitação, oportunidade e dinâmica entre jovens machos, em vez de oferecer uma explicação fechada. A novidade foi documentada com câmeras e análise de uma população específica; não se deve estender o resultado a todos os macacos-prego.

A imagem de um macaco carregando um filhote de bugio é inesquecível, mas o detalhe decisivo é o conjunto de registros ao longo do tempo. Ele permite perguntar como uma ação rara se difundiu e quais custos teve. A pesquisa avança justamente ao manter separadas a cena, a consequência para os filhotes e as hipóteses ainda em teste.