Os psicólogos concordam: quem tem entre 55 e 75 anos costuma tolerar melhor o silêncio do que as gerações mais novas
Infância sem celular e sem notificações ajuda a explicar por que um momento quieto soa como descanso
A tolerância ao silêncio costuma ser maior entre pessoas de 55 a 75 anos do que entre as gerações que vieram depois. A observação da psicologia aparece numa reportagem do jornal espanhol OKDiario: para quem cresceu sem celular, um momento quieto não soa como falta de alguma coisa, e sim como descanso.
A explicação, segundo o texto, não está só no temperamento de cada um. Pesa muito o ambiente em que essa geração cresceu, com tardes sem tela, viagens de ônibus sem fone e casas sem som ligado o dia inteiro.

Por que o silêncio incomoda menos quem cresceu sem celular?
O sistema nervoso se ajusta ao ambiente da infância. Nos primeiros anos de vida, o cérebro aprende quanto estímulo considera normal e seguro. Quem nasceu entre as décadas de 1950 e 1970 se acostumou a um mundo com menos barulho e nenhuma notificação.
Para essas pessoas, ficar em silêncio pode significar pausa, reflexão e bem-estar. Já crianças e adolescentes de hoje crescem cercados de vídeos, música e avisos constantes, e a falta de som pode dar a eles a sensação estranha de que algo ficou incompleto.
O hábito de preencher cada pausa é aprendido
A reportagem descreve uma dificuldade maior de tolerar a baixa estimulação em quem se acostumou a recompensas imediatas e frequentes. Celular, redes sociais e entretenimento contínuo mantêm a mente ocupada com pequenos estímulos o tempo todo.
Quando eles somem, muita gente sente inquietação e corre para ligar a televisão, colocar uma música ou conferir o telefone. Nem sempre é uma escolha consciente: é uma resposta aprendida depois de anos de exposição.
Silêncio é diferente de ficar sozinho com os pensamentos
Aqui cabe um cuidado. Em 2014, um estudo da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, publicado na revista Science, pediu que voluntários passassem de 6 a 15 minutos a sós com os próprios pensamentos, sem celular nem leitura. Numa das etapas, cerca de dois terços dos homens e um quarto das mulheres preferiram se dar um leve choque elétrico a seguir parados, segundo a própria universidade.
Os participantes tinham de 18 a 77 anos, e o psicólogo Timothy Wilson, que liderou a pesquisa, contou ter se surpreendido porque nem os mais velhos mostraram gosto especial por ficar sozinhos pensando. Aceitar um ambiente quieto é uma coisa; passar minutos sem fazer nada é outra, e esse desafio atinge todas as idades.
O que a calma faz pela cabeça
Ainda segundo o OKDiario, períodos de calma favorecem memória, concentração e regulação emocional, e reduzir a exposição contínua ao ruído pode ajudar a baixar o estresse. Não por acaso, meditação e exercícios de relaxamento têm o silêncio como base.
No Brasil, o tema diz respeito a muita gente: o Censo 2022 do IBGE contou mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. E a psicologia tem olhado essa fase com menos estereótipo, como mostra a ideia de que ter poucos amigos depois dos 60 anos não significa, necessariamente, isolamento.
Nenhuma geração sai na frente
O próprio texto espanhol faz a ressalva: essa relação com o silêncio não torna uma geração melhor do que a outra. Ela mostra como o contexto molda o jeito de o cérebro funcionar. Hoje, muita gente tenta recuperar esse equilíbrio com pausas voluntárias e momentos longe da tecnologia, como tomar o café com o celular em outro cômodo.
Os dinamarqueses até têm uma palavra para o prazer das pequenas pausas em casa, o hygge, que valoriza o conforto dentro de casa. Quem cresceu sem notificações lembra o resto de nós de algo simples: nem todo minuto precisa ser preenchido.