Especialista em felicidade de Harvard: “Na segunda metade da vida, não basta somar, é preciso subtrair”

Arthur Brooks propõe uma lista de desejos ao contrário e explica por que o amor sustenta tudo

A segunda metade da vida pede uma mudança de rota que pouca gente faz: parar de só acumular e começar a tirar o que pesa. A recomendação é do cientista social Arthur C. Brooks, professor da Harvard Kennedy School e da Harvard Business School, que resume a ideia numa regra curta: não basta somar, é preciso subtrair.

Brooks estuda felicidade há anos e assina a coluna “How to Build a Life” na revista The Atlantic. As ideias estão no livro From Strength to Strength, lançado em 2022, e foram organizadas por ele mesmo em cinco pontos, como relembrou o jornal argentino La Nación nesta semana. Ele já contou por que acorda às 4h30 e trata isso como a primeira vitória do dia.

Para o professor de Harvard, o tempo liberado deve ir para amizades de verdade – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Para o professor de Harvard, o tempo liberado deve ir para amizades de verdade – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Da tela cheia de tinta ao bloco de mármore

Para explicar a virada, Brooks usa duas imagens. Na juventude, a vida funciona como uma tela que vamos enchendo de tinta, e o único limite é a imaginação. A partir de certo ponto, porém, a tela fica cheia.

“Na segunda metade da vida, você precisa se tornar um escultor e tirar o que não é você: os bens, os apegos, as crenças, até as opiniões”, escreveu o professor no texto que publicou no Next Big Idea Club. Segundo ele, é tudo aquilo que distrai da tarefa séria de ser quem você é.

O que dá para subtrair na prática?

A proposta é concreta. Brooks sugere ter, além da lista de desejos, uma lista de desejos ao contrário: todo ano, no aniversário, anotar de cinco a dez coisas das quais você quer se livrar porque estão te segurando. Pode ser um compromisso que virou obrigação ou objetos guardados sem uso.

No Brasil, muita gente já tem o costume de fazer listas na virada do ano, quase sempre com coisas a acrescentar. O exercício de Brooks inverte a lógica e coloca no papel o que pode sair da rotina para abrir espaço ao que importa.

Por que o sucesso não garante a felicidade

Para o professor, felicidade não é só um sentimento, mas a combinação de prazer, satisfação e propósito, elementos sobre os quais temos mais controle do que imaginamos. Ele compara a sensação de felicidade ao cheiro do peru no jantar de Ação de Graças: o aroma é um sinal, não o jantar em si.

Brooks afirma, no mesmo texto do Next Big Idea Club, que depois dos 70 anos as pessoas se dividem em dois grupos de tamanho parecido, um que fica cada vez mais feliz e outro cada vez menos. Quem mais sente a queda, diz ele, costuma ser justamente quem teve muito sucesso cedo, porque percebe com força a perda do reconhecimento quando essa fase acaba.

A inteligência que continua crescendo com a idade

Outro ponto do livro trata de dois tipos de inteligência. A fluida, ligada a foco, rapidez de raciocínio e criatividade, aumenta entre os 20 e os 30 anos e começa a cair nos 40 e 50. Já a inteligência cristalizada, feita de conhecimento e experiência, cresce nos 40 e 50 e se mantém alta nos 60 e 70.

Por isso, Brooks recomenda passar aos poucos do papel de inovador para o de instrutor: usar o que se aprendeu para ensinar. Na visão dele, os melhores professores costumam ser justamente os mais velhos.

Para começar a subtrair, cuide das raízes

A última ideia sustenta todas as outras. “O amor é o combustível nuclear da felicidade, e se você não tem muito amor na vida, não consegue ficar mais feliz à medida que envelhece”, afirma Brooks. Ele usa o exemplo dos álamos: um bosque parece formado por árvores isoladas, mas todas dividem o mesmo sistema de raízes.

Na prática, a receita junta as duas pontas: tirar da agenda e da casa o que só ocupa espaço e investir esse tempo em amizades de verdade, e não apenas nos contatos de trabalho. É uma linha parecida com a dos psicólogos que apontam que os aposentados mais felizes mantêm alguns hábitos vivos. Uma boa pergunta para começar é a que o próprio Brooks faz: quantos amigos reais você tem?