Médico especialista em estresse: “A resiliência não é uma cicatriz, é sair mais forte do que antes”

Daniel López Rosetti conta as perdas que viveu e o que faz para lidar com as emoções no dia a dia

Para o médico argentino Daniel López Rosetti, especialista em estresse, resiliência não é fechar a ferida e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. “A resiliência não é uma cicatriz, é sair mais forte do que antes”, disse ele em entrevista à jornalista Cristina Pérez no canal LN+, reproduzida pelo jornal La Nación.

Na conversa, López Rosetti apresentou o livro Una buena vida e falou da superação da dor a partir da própria história: a morte repentina do pai e uma tuberculose que enfrentou meses depois. Dessas perdas, ele tirou a ideia de que se recuperar é um processo que fortalece, e não uma ferida que apenas se fecha.

Reservar um tempo para si ajuda a perceber e entender as próprias emoções – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Reservar um tempo para si ajuda a perceber e entender as próprias emoções – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A dor que ensina, segundo o médico

Quando era jovem e já exercia a medicina, López Rosetti pagou aos pais uma viagem à Europa. De Sevilha, o pai ligou para agradecer o presente, um gesto pouco comum nele, o que deixou o filho muito feliz. No dia seguinte, a mãe telefonou chorando: o pai tinha morrido de uma parada cardíaca.

Cinco meses depois, segundo o La Nación, o médico não se sentiu bem, examinou o próprio pulmão com o estetoscópio e uma radiografia mostrou um derrame no lado direito. A biópsia confirmou tuberculose pleural, e vieram 18 meses de tratamento. Ele conta que tirou o melhor que pôde daquele período e que aprendeu com a mãe, que também passou por grandes dores, que no “crisol da dor” se aprende.

Por que resiliência não é endurecer?

Para López Rosetti, a dor não deve engrossar a pele nem apagar a emoção. Sair mais forte, no sentido que ele defende, é atravessar a perda com sensibilidade e aprender com ela, sem fingir que não doeu. Ele lembra ainda que a memória desses dias não é uma fita gravada que toca sempre igual: é preciso reconstruí-la.

Essa visão conversa com quem vive um luto recente, como o humorista que refletiu sobre o luto no primeiro Finados sem o pai e falou também do reencontro com a comédia.

Velocidade digital, vida analógica

Perguntado sobre o ritmo atual, ele respondeu com uma comparação: “Estamos em velocidade digital e somos analógicos”. Nas oficinas de controle do estresse que conduz, López Rosetti sugere algo simples: sair para caminhar deliberadamente mais devagar, para perceber o trajeto de outro jeito e prestar atenção ao que acontece pelo caminho.

Outra observação que ele repetiu na entrevista é que as pessoas, em geral, não estão na própria agenda. As tarefas se acumulam da manhã à noite e, ao revisar o dia, sobra a pergunta sobre o espaço que ficou para si mesmo.

Como reconhecer e lidar com as emoções

O primeiro passo, segundo o médico, é identificar o que se sente: raiva, alegria, culpa, vergonha, inveja. Dar nome ajuda, mas não basta. Para ele, é preciso entender o motivo, olhando para a situação que despertou aquela reação e para a forma como a pessoa se relaciona com ela.

López Rosetti defende fazer as pazes com as emoções: descobri-las, nomeá-las e regulá-las, sem tentar controlá-las. Também pede que sejam vividas como sequências, momentos que vão passando, numa alternância natural. O tema aparece ainda na leitura da psicologia sobre a gestão das emoções em quem viveu longos períodos de incerteza.

Sair mais forte começa por pequenos gestos

Na prática, as ideias do médico cabem na rotina: caminhar mais devagar de vez em quando, reservar um espaço na agenda para si, dar nome ao que se sente e procurar entender a causa. Nada disso apaga a dor, mas ajuda a atravessá-la sem endurecer.

Quando o sofrimento pesa demais, conversar faz diferença. No Brasil, quem precisa desabafar pode discar 188, o número gratuito do CVV, que funciona a qualquer hora e em qualquer cidade; a rede pública de saúde também oferece acompanhamento psicológico.