Neurocientista: “Mudar hábitos implica mudar a ideia que a pessoa tem sobre si mesma”
Para Nicole Vignola, trocar uma rotina mexe com a identidade, e por isso o cérebro resiste tanto
Quem tenta mudar hábitos e desiste no meio do caminho talvez esteja enfrentando algo maior do que falta de disciplina. Para a neurocientista Nicole Vignola, a troca de uma rotina mexe com a forma como a pessoa se enxerga. “Modificar hábitos implica alterar a ideia que alguém tem sobre si mesmo”, afirmou em entrevista ao jornal argentino La Nación.
Nascida em Sanremo, na Itália, e criada entre o país europeu e a África do Sul, Vignola teve, segundo o La Nación, uma infância marcada por vínculos familiares complicados. Foi essa experiência que a levou a estudar o cérebro, para entender por que certos padrões se repetem mesmo quando causam sofrimento. Hoje, seu trabalho cruza hábitos, comportamento, plasticidade cerebral e identidade.

Por que trocar uma rotina mexe com quem você é
Segundo a neurocientista, o cérebro funciona como uma máquina de previsão e dá preferência ao que é familiar, mesmo quando aquilo já deixou de servir. Quando alguém muda um comportamento, quebra as próprias expectativas internas. Aí aparecem ansiedade, dúvida e até uma sensação parecida com luto.
Ela explica que relações, sentimento de pertencimento e autoimagem muitas vezes foram construídos em torno dos velhos padrões. Abandonar um deles pode parecer uma perda, ainda que a mudança faça bem. Por isso, na visão de Vignola, os hábitos funcionam como provas que reforçam a identidade, e mudar se parece menos com virar outra pessoa e mais com ampliar algo que já existia.
Falta de força de vontade ou cérebro cansado?
Muitas escolhas do dia a dia, diz Vignola, são comandadas pelos gânglios da base, região do cérebro que busca economizar energia. Assim, escovar os dentes, certas formas de reagir e até alguns vínculos viram automáticos. Ela lembra que a força de vontade tem limite para todo mundo e que o controle sobre as decisões cai ao longo do dia, conforme o cérebro se cansa. Uma leitura bem menos dura do que a do provérbio chinês sobre a força de vontade que separa grandes e fracas almas.
Para reconhecer um padrão aprendido, a neurocientista aponta três pistas: um comportamento que se repete sem explicação clara, reações automáticas que surgem sob cansaço ou estresse, como agradar demais ou evitar situações, e frases do tipo “sempre fui assim”, que costumam refletir histórias reforçadas pela repetição.
Entender o problema não basta para mudar
Vignola chama atenção para quem consome muito conteúdo sobre hábitos sem resultado duradouro. Entender e mudar, segundo ela, dependem de sistemas diferentes do cérebro. Ler ou ouvir sobre o assunto dá pequenas recompensas e uma ilusão de progresso, mas a mudança só se firma com repetição, carga emocional e algum grau de atrito.
Ela também sugere rever o que significa “já ter tentado”. Muitas vezes são vários esforços curtos e pouca constância. Outro tropeço comum é olhar só para a distância até a meta e esquecer o avanço acumulado, porque o cérebro percebe mais o que falta do que o que já melhorou. O ambiente digital, com notificações o tempo todo, também treina a mente para se distrair.
O básico ainda é o que mais funciona
Para a neurocientista, a indústria do bem-estar complicou o que é simples: dormir bem, beber água, se movimentar, comer melhor e prestar atenção aos próprios pensamentos já fazem enorme diferença. Ela critica ainda a vergonha diante de um deslize, já que a culpa estreita o foco e mantém justamente os padrões que se quer mudar.
A orientação conversa com o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que recomenda ao menos 150 minutos semanais de atividade moderada para adultos e pede a quem ainda não chegou lá que não desista e aumente aos poucos. O guia sugere identificar na rotina os horários com mais chance de praticar.
Pense em quem você quer ser, não só na meta
Na prática, a ideia de Vignola pode ser aplicada trocando “preciso correr” por “sou uma pessoa que se movimenta” e tratando cada caminhada curta como prova disso. Constância pesa mais do que intensidade, e um dia perdido vira informação, não fracasso. Quem quer ir além pode olhar para as escolhas de hoje que influenciam a saúde décadas depois e escolher uma por vez.