Novo exame de colesterol pode prever melhor o risco de infarto e AVC, aponta estudo

Pesquisa indica que teste que mede a apolipoproteína identifica com mais precisão o risco cardiovascular do que os exames tradicionais de colesterol

O exame de colesterol faz parte da rotina de milhões de pessoas e é uma das principais ferramentas para avaliar o risco de doenças cardiovasculares. No entanto, uma nova pesquisa sugere que um teste menos conhecido pode oferecer resultados ainda mais precisos.

Publicado na revista científica JAMA, um estudo conduzido por pesquisadores da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos, concluiu que a medição da apolipoproteína B (apoB) supera os exames tradicionais de colesterol LDL (“colesterol ruim”) e colesterol não-HDL na identificação de pessoas que precisam de um tratamento mais intensivo para reduzir o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Os resultados indicam que essa estratégia pode prevenir um número maior de eventos cardiovasculares e ainda apresentar uma boa relação entre custo e benefício.

Exame que investiga partículas de colesterol no sangue se mostra mais eficaz na prevenção de doenças cardíacas do que teste convencional
Exame que investiga partículas de colesterol no sangue se mostra mais eficaz na prevenção de doenças cardíacas do que teste convencional - iSTock/Rasi Bhadramani

O que é o exame de apoB?

A apolipoproteína B, conhecida como apoB, é uma proteína presente nas partículas de lipoproteínas responsáveis por transportar colesterol pelo organismo.

Diferentemente dos exames convencionais, que medem apenas a quantidade de colesterol circulando no sangue, o teste de apoB avalia o número de partículas potencialmente prejudiciais que podem penetrar na parede das artérias e contribuir para a formação de placas de gordura, processo conhecido como aterosclerose.

Como cada uma dessas partículas contém uma molécula de apoB, sua dosagem oferece uma estimativa mais precisa da quantidade de lipoproteínas capazes de provocar danos aos vasos sanguíneos.

Qual é a diferença entre o teste de apoB e o colsterol LDL?

Na prática clínica, o colesterol LDL continua sendo o principal parâmetro utilizado para avaliar o risco cardiovascular e orientar o uso de medicamentos, como as estatinas.

Entretanto, esse exame mede apenas a concentração de colesterol transportado pelas partículas, sem indicar quantas partículas realmente estão circulando.

Já o exame de apoB fornece uma informação diferente: ele contabiliza diretamente o número dessas partículas aterogênicas.

Essa diferença pode ser importante porque duas pessoas podem apresentar níveis semelhantes de colesterol LDL, mas quantidades muito diferentes de partículas nocivas, o que altera significativamente o risco de desenvolver doenças cardiovasculares.

Como o estudo foi realizado?

Para comparar as estratégias, os pesquisadores desenvolveram uma simulação computacional envolvendo cerca de 250 mil adultos norte-americanos elegíveis para tratamento com estatinas.

O modelo avaliou três formas de orientar a intensificação do tratamento para redução do colesterol:

  • Meta baseada no colesterol LDL inferior a 100 mg/dL;
  • Meta baseada no colesterol não-HDL inferior a 118 mg/dL;
  • Meta baseada na apolipoproteína B inferior a 78,7 mg/dL.

A análise estimou os efeitos dessas estratégias ao longo da vida dos participantes.

O que os pesquisadores descobriram?

Os resultados mostraram que a estratégia baseada na medição da apoB apresentou o melhor desempenho.

Segundo os pesquisadores, utilizar esse exame para orientar o tratamento permitiria:

  • reduzir um número maior de infartos;
  • prevenir mais casos de AVC;
  • aumentar a expectativa de vida dos pacientes;
  • utilizar os recursos financeiros de forma mais eficiente nos sistemas de saúde.

De acordo com o pesquisador Ciaran Kohli-Lynch, principal autor do estudo, a dosagem de apoB mostrou potencial para identificar com maior precisão quem realmente se beneficiaria de um tratamento intensivo para reduzir o colesterol.

Por que o exame ainda não é amplamente utilizado?

Apesar dos resultados promissores, o teste de apoB ainda não faz parte da rotina da maioria dos consultórios.

Um dos principais motivos é que sua realização normalmente representa um exame adicional ao perfil lipídico tradicional, aumentando os custos da investigação inicial.

Além disso, muitas diretrizes clínicas ainda utilizam prioritariamente os níveis de colesterol LDL como referência para o acompanhamento dos pacientes.

No entanto, especialistas destacam que essa realidade pode mudar nos próximos anos, especialmente porque o tratamento preventivo do colesterol elevado vem sendo iniciado cada vez mais cedo em pessoas com maior risco cardiovascular.

Quem pode se beneficiar desse exame?

Embora a indicação deva ser individualizada pelo médico, o exame de apoB pode ser especialmente útil para pessoas que apresentam:

  • histórico familiar de doenças cardiovasculares precoces;
  • colesterol elevado de difícil controle;
  • diabetes;
  • obesidade;
  • síndrome metabólica;
  • alto risco cardiovascular, mesmo com níveis aparentemente normais de LDL.

Nesses casos, uma avaliação mais detalhada das partículas de colesterol pode ajudar a definir a necessidade de mudanças no tratamento.

O exame de apoB substitui o colesterol tradicional?

Ainda não. Os especialistas ressaltam que o exame de colesterol convencional continua sendo uma ferramenta importante e amplamente validada para a avaliação do risco cardiovascular.

O teste de apoB surge como um complemento que pode oferecer informações adicionais em situações específicas, permitindo uma estratificação de risco mais precisa e auxiliando na tomada de decisões sobre o tratamento.

À medida que novas pesquisas confirmem seus benefícios, a expectativa é que a dosagem da apolipoproteína B ganhe espaço nas diretrizes clínicas e contribua para uma prevenção mais eficaz das doenças cardiovasculares.