Carmen Lanchares, especialista em longevidade: “A partir dos 50, o bem-estar emocional começa a subir de forma sustentada”
Estresse, resiliência e sensação de liberdade costumam melhorar com o passar das décadas
O bem-estar emocional depois dos 50 tende a melhorar, e não a desabar, como muita gente imagina. É o que defende a espanhola Carmen Lanchares, especialista em longevidade: segundo ela, um estudo internacional sugere que a satisfação com a vida fica relativamente estável na primeira metade da vida e, a partir dessa idade, começa a subir de forma sustentada.
Lanchares é autora do livro El tiempo a nuestro favor (O tempo a nosso favor, sem edição no Brasil até agora), publicado pela editora Debate. Em entrevista ao jornal esportivo espanhol AS, ela explicou por que associar velhice a desânimo é um dos grandes erros do nosso tempo.

Os 60 anos não são uma fronteira
Para a especialista, a ideia de que a felicidade some com os anos está enraizada no imaginário coletivo, mas a ciência desenha outro cenário. “Transformamos os 60 anos numa fronteira que, na realidade, não existe”, afirmou ao AS.
Ela sustenta que algumas capacidades até melhoram com o tempo. Na lista estão a gestão do estresse, a inteligência emocional, a resiliência, a resolução de conflitos e a sensação de liberdade, habilidades que costumam se fortalecer depois de décadas de experiência.
O que diz a curva em U da felicidade?
Lanchares lembra que muitos estudos descreviam a felicidade ao longo da vida como uma curva em U: alta na juventude, um vale na meia-idade e uma recuperação depois. O economista David Blanchflower, do Dartmouth College, encontrou esse formato em 132 países num trabalho divulgado pelo NBER, o escritório nacional de pesquisa econômica dos Estados Unidos. Pelos cálculos dele, o ponto mais baixo fica em torno de 47 anos nos países ricos e de 48 nos países em desenvolvimento.
Pesquisas mais recentes, segundo a especialista, sugerem um quadro ainda mais animador. “Um estudo internacional com mais de 200 mil participantes sugeria que o bem-estar emocional se mantém mais ou menos estável na primeira parte da vida e, a partir dos 50, começa a subir de forma sustentada”, explicou ela, sem detalhar ao jornal qual foi a pesquisa.
Do antiaging ao envelhecer bem
Durante décadas, a indústria da beleza e do bem-estar vendeu a mesma promessa: quanto menos você aparentasse a sua idade, melhor. Para Lanchares, essa visão começa a mudar. Na era do antiaging, diz ela, o objetivo era quase declarar guerra à biologia para parecer dez ou vinte anos mais jovem.
Por trás dessa obsessão está uma sociedade que ainda liga juventude a sucesso, beleza e relevância. Ela resume o problema dizendo que vivemos em uma sociedade etarista. No Brasil, a palavra etarismo entrou de vez no vocabulário nos últimos anos, e falas como a de Dan Buettner, que estuda as regiões onde as pessoas vivem mais, ajudam a mudar o foco da aparência para os hábitos.
Como cuidar do bem-estar depois dos 50?
Em vez de combater o envelhecimento, a especialista propõe acompanhá-lo, no que chama de proaging ou wellaging. Na prática, isso significa cuidar da saúde, preservar a autonomia e manter uma aparência que reflita a vitalidade que a pessoa sente, sem a pressão de esconder a idade.
Ela destaca ainda o papel dos baby boomers nessa virada cultural: uma geração que chega à maturidade com vontade de continuar participando da sociedade e de não ficar de lado. O que torna uma vida satisfatória vai muito além da idade, como mostra o texto que explica por que a Dinamarca está entre os lugares mais felizes do mundo.
Aceitar a idade não é se resignar
A síntese da especialista é direta: aceitar o envelhecimento não é se resignar, e sim aprender a viver essa fase de outro jeito. Quem enfrenta tristeza persistente, porém, não deve esperar a curva subir sozinha; nesse caso, o caminho é buscar ajuda de um profissional de saúde mental, inclusive pela unidade básica de saúde do SUS.