Psicólogo: “A ansiedade nem sempre avisa com uma crise, muitas vezes se infiltra em coisas tão pequenas que você nem percebe”
Café em excesso, celular na cama e culpa por descansar estão entre os hábitos que mantêm o corpo em alerta
A ansiedade nem sempre chega como uma crise de pânico, com coração disparado e falta de ar. Muitas vezes ela se mostra em sinais sutis do dia a dia, que passam despercebidos por meses. É o que defende o psicólogo espanhol Antonio de Dios González, em fala destacada nesta quinta-feira (5) pelo jornal El Confidencial: “A ansiedade nem sempre avisa com uma crise, muitas vezes se infiltra em coisas tão pequenas que você nem percebe”.
Com mais de 30 anos de experiência no atendimento de ansiedade, depressão e estresse, segundo o jornal Vozpópuli, ele usa as redes sociais para mostrar como esse estado se constrói aos poucos. Em uma publicação de agosto reproduzida pelo Vozpópuli, o psicólogo listou oito hábitos comuns que alimentam a ansiedade sem que a pessoa note.

A ansiedade silenciosa se constrói aos poucos
Para o especialista, não existe um único gatilho. São gestos que parecem inofensivos e que, repetidos todos os dias, mantêm o corpo em estado de alerta. Na publicação, ele resume que esses hábitos tão normais mandam ao organismo o recado de que há perigo por perto.
O problema é comum. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 470 milhões de pessoas tinham um transtorno de ansiedade em 2023, o que faz desse grupo o transtorno mental mais frequente do mundo. Segundo a mesma entidade, só cerca de uma em cada quatro pessoas que precisam de tratamento recebe algum.
Quais hábitos alimentam a ansiedade sem alarde?
Na lista de Antonio de Dios aparecem o excesso de café, energéticos e pré-treinos, que aceleram o corpo, e as horas de rolagem no celular, que segundo ele deixam o sistema nervoso em tensão constante. Dormir tarde todos os dias também entra na conta, porque “o descanso é onde o cérebro repara o medo do dia”.
Completam a relação pesquisar no Google cada sintoma ou sensação, cobrar de si mesmo rendimento máximo o tempo todo, consumir notícias negativas sem parar e checar notificações a cada poucos minutos. O psicólogo compara cada aviso do celular a um pequeno alarme que, somado ao longo do dia, impede o organismo de descansar.
Sinais sutis que merecem atenção
A OMS lista sintomas que vão além da crise aguda: dificuldade para se concentrar ou tomar decisões, irritação, tensão ou inquietação, enjoo ou desconforto abdominal, palpitações, suor, tremores e problemas para dormir. Quando duram vários meses e atrapalham o trabalho, a família e a vida social, deixam de ser só cansaço. A entidade também observa que quem tem ansiedade costuma evitar as situações que a provocam.
Na prática, isso pode aparecer como acordar já esgotado, perder a paciência com detalhes ou adiar compromissos que antes eram tranquilos. Preocupações concretas também pesam, e a Catraca já mostrou como a ansiedade com as contas do fim do mês pode tirar o sono sem que a pessoa ligue uma coisa à outra.
O círculo que não se fecha
O último item da lista do psicólogo é o mais traiçoeiro: quando a pessoa finalmente para, volta a se cobrar produtividade. Descansa um pouco, sente culpa e aperta de novo. Para ele, a ansiedade não mora em um hábito só, mas nesse ciclo que se repete, e entender o mecanismo do medo no cérebro ajuda a enxergar por que o corpo reage antes da razão.
Antonio de Dios também tira o peso da culpa. Segundo ele, nenhum desses hábitos define quem você é, e às vezes largar apenas um deles já muda o jeito como se acorda no dia seguinte.
Um passo de cada vez, e ajuda quando precisar
Um bom começo é escolher um hábito por semana: trocar o café da tarde por água, deixar o celular longe da cama, desligar avisos que não são urgentes e limitar o tempo de noticiário. Se os sintomas persistirem ou atrapalharem a rotina, procure um psicólogo ou médico, porque os transtornos de ansiedade têm tratamento eficaz, segundo a OMS.
No Brasil, a rede pública atende pelas Unidades Básicas de Saúde e pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do SUS. Em momentos de sofrimento intenso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, segundo a própria entidade.